Dia desses, no fim da noite, as crianças montavam quebra-cabeça no chão e eu já estava começando a arrumação final da casa para a hora de dormir. Fiquei com dó de mandar os dois desmancharem o quebra-cabeça antes mesmo de terminarem e disse:
- Terminem de montar esse e logo depois guardem todos os brinquedos.
Maria Luísa se aproximou do Pedro e disse bem baixinho, cochichando:
- Pedro, vamos montar beeeem devagar...
- Não, Maria! Vamos montar rápido, a gente tem um monte de coisa para guardar depois!
- Ai, Pedro, que tipo de criança você é?
quarta-feira, 24 de junho de 2020
terça-feira, 16 de junho de 2020
Quarenteners
Queridos filhos,
Estamos há quase três meses em casa, vivendo as 24 horas do dia juntos. Devo ter citado em algum post anterior, mas, caso não tenha sido clara o suficiente, conto mais uma vez essa história que vocês provavelmente contarão muitas vezes para quem vier depois da gente. Estamos em quarentena por conta de uma pandemia causada pelo vírus Covid-19, o coronavírus. Começou lá na China, no fim do ano passado, e foi se espalhando pelo mundo todo. Foi preciso trancar todo mundo em casa para proteger as pessoas de uma coisa tão pequena e perigosa. O vírus nem é tão letal assim, mas a transmissão é rápida e pode sim matar.
Muitos países adotaram o lockdown, que é quando as pessoas são proibidas de verdade de sair, exceto para coisas essenciais e urgentes, como mercado e farmácia. Aqui no Brasil não foi bem assim. Parece - e os dados comprovam - que ninguém levou a quarentena muito a sério. Por isso mesmo hoje já somamos mais de 44 mil mortes. Triste, né? A nossa família - eu, vocês e o papai - escolheu se proteger e proteger nossas pessoas queridas. Isso significa que desde a primeira semana de março não abraçamos mais as vovós, não vamos mais na casa das pessoas, não saímos de casa sem máscara.
Estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para proteger as pessoas mais velhas que conhecemos - e o distanciamento social é a primeira coisa da lista. Quanto a nós quatro, nos trancamos em casa e saímos para poucas coisas, como feira, supermercado, corrida matinal e bicicleta na rua do nosso apartamento (que é sem saída e fica vazia depois das quatro da tarde). Protegemos também vocês dois do pânico que a situação causou. Ainda assim, optamos por contar tudo que está acontecendo, explicar o que vocês perguntam e falar sobre o assunto sempre que ele surge. Seria impossível - e insensível - esconder que o mundo ficou de cabeça para baixo.
Pode parecer difícil estar convivendo tão intensamente por tanto tempo, e é. Mas mesmo sem perceber a gente acabou organizando uma rotina nova, cuidando um do outro, redobrando a paciência. E vocês se mostraram mais incríveis do que a gente imaginava. Os dois têm encarado muito bem esse momento de confinamento e isso colabora muito para que a nossa casa tenha um clima de harmonia. De amor nos tempos do Covid.
Depois de passarem um ano e meio divididos entre uma correria de escola, casas das avós e finalmente nossa casa ao fim do dia, era natural que tivessem saudade de ficar tranquilos no próprio quarto ou na sala, com seus brinquedos e livros. Já estava nos nossos planos ter uma vida menos agitada em 2020 (juro que não sabia da pandemia!). No começo do ano eu tinha promovido uma grande arrumação nos armários e nós achamos muitas coisas legais, que vocês nem lembravam mais. Tenho trabalhado como freelancer e isso me dá flexibilidade de horário. Papai trabalha com horário, mas em home office.
Juntem a isso a sorte de estarem em dois, e de terem idades parecidas. E de serem pessoas calmas, compreensivas e que sabem se entreter com pouco. Aliás, esse talento de vocês foi a peça-chave para sobrevivermos a mais de 80 dias em um apartamento (que não é pequeno, mas é um apartamento). Papai e eu também nos divertimos lendo, conversando, cozinhando receitas novas. Vocês cresceram sem tanta televisão ou iPad e justamente por isso sabem brincar. E é disso que eu quero falar. Quero registrar quais são as coisas que vocês têm feito, as brincadeiras, as músicas, a maneira que temos vivido esse tempo tão diferente.
Futebol de corredor
Não sei nem se dá 6 metros, mas o corredor de entrada da casa é o lugar ideal para um futebolzinho de meio de dia. A porta é um gol, as pernas da poltrona é outro. O campo é livre e geralmente vocês dois formam um time super empolgado - especialmente a Maria Luísa, que é quem sempre chama a galera para jogar. Tão animado que o vizinho da frente postou uma reclamação no grupo do condomínio no Whatsapp. Azar dele, já que a gente não pode usar outras áreas do prédio e o jogo tem que continuar.
Caçadores da arca no vulcão de uma galáxia distante
Nem o brinquedo mais caro do mundo tira o reinado do leão de plástico, que era do tio Fabinho e hoje faz companhia para os inúmeros outros animais de plástico que moram em um dos baldes da sala. Eles fazem companhia para os integrantes da Patrulha Canina, as princesas da Frozen e um bonequinha horrorosa chamada Lol Surprise. As duras batalhas já fizeram muitos dos cachorros perderem orelhas ou pés, mas nada que os impeça de continuar a atuar como caçadores em um lugar cheio de lavas e ameaçado pelo Shere Khan, o tigre malvado do filme do Mogli, que aqui em casa é representado pelo Gato Guerreiro, o tigre amigo do He Man, que vocês não fazem ideia de quem seja. A imaginação de vocês é gigante, invejável e todos os dias vocês se olham e falam: "vamos brincar de caçadores?", e começam a criar um mundo cheio de 'finge que'.
Aulas virtuais
Ainda em março, quando as aulas presenciais foram suspensas, a escola de vocês tentou implantar o estudo à distância. Não deu certo. Ninguém sabia como fazer, nem escola (que é construtivista) nem famílias. Eu me dei conta que vocês não sabiam usar o mouse, olha só. Nasceram na era do touch screen (diferente de mim e do papai, que nascemos na era da folha de papel almaço). Por fim todo mundo entrou de férias em abril e em maio tudo recomeçou, muito mais estruturado. Vocês aprenderam a usar o computador e a ver os amigos pela tela. Pedro, você, aos 7 anos, tem aulas virtuais de matemática, práticas de linguagem, ciências, música, inglês e muitas outras. Maria, aos 4 anos, ouve histórias, aprende a fazer dobraduras, pinturas, colagens e sons. Tudo da sala de jantar, onde de segunda a sexta estão os computadores e todos os livros e materiais que vão ser usados na semana. Papai e eu nos revezamos para ajudar e tem dado tudo certo (apesar de às vezes ficarmos meio confusos com tanta coisa ao mesmo tempo). Não é o ideal, mas é o que podemos fazer hoje. A escola tem se esforçado e nós também. Temos sorte de vocês serem inteligentes e interessados, de sempre participarem das atividades e de aprenderem mesmo quando não estão estudando.
Leiturinha e a necessidade de rotina
Criança gosta e precisa de rotina e aqui em casa sempre fomos comprometidos com isso. Eu também adoro, não vou mentir. Mas ficar em casa o tempo todo cansa pouco - as crianças, claro. Nós, adultos, ficamos acabados. Todo mundo acorda um pouco mais tarde, não se movimenta muito durante o dia e não tem sono na hora de dormir. Vocês iam para a cama às 8 e meia da noite a agora vão às nove e meia. O jantar também ficou para mais tarde, o almoço do fim de semana nem se fala. Mas se tem uma coisa que tem que acontecer todo santo dia é a leiturinha da Maria. E acontece com ritual: coberta, almofadas, bichos de pelúcia e um gibi cuidadosamente escolhido. Vocês têm amado ler gibi. Maria, que ainda não lê, prefere Turma da Mônica. Pedro, leitor há mais tempo, gosta da Mônica mas adora também Tio Patinhas, Asterix e Obelix, Calvin, Snoopy e o que achar pela casa. À noite a escolha é sempre de um livro, que papai ou eu lemos para os dois antes de dormirem. É tão bonitinho ver vocês se arrumando na cama da Maria para ouvir a história, mesmo que seja dos Três Porquinhos (a favorita da Maria há uns anos já).
Caetanear o que há de bom
Outra coisa legal que acabou acontecendo naturalmente e que marca as nossas semanas é que no sábado e no domingo sempre tem música em casa. Eu confesso que gosto do silêncio, mas papai e vocês são super musicais e amam ouvir alguma coisa na hora do almoço, do futebolzinho ou do quebra-cabeça na mesa de jantar. E essa alguma coisa é 95% das vezes Caetano Veloso. Até o Spotify já entendeu nossaobsessão predileção e nos leva automaticamente para as músicas do Caetaninho, mesmo que a gente tenha começado a ouvir um samba ou qualquer outra coisa. Passamos a cozinhar e almoçar em casa nos fins de semana e isso se mostrou mais agradável do que pensávamos. São dias sem pressa, sem compromissos, só de música e descanso. Às vezes vamos na chácara do vovô no meio da tarde, só nós quatro, para jogar futebol no campinho, tomar um ar, subir na árvore, balançar na rede. Temos um privilégio grande de ter para onde fugir quando cansamos de olhar para as mesmas paredes.
Quando tudo isso acabar - e a gente não sabe quando vai ser -, espero que vocês tenham boas memórias do tempo que passamos juntos. Nem todo dia é lindo, claro, e temos consciência que lá fora tem gente em situação bem difícil. De qualquer forma, é um grande desafio essa convivência intensa, mas fico feliz que temos tido bons momentos e estamos mais próximos do que nunca. Que honra poder passar a quarentena com vocês.
Estamos há quase três meses em casa, vivendo as 24 horas do dia juntos. Devo ter citado em algum post anterior, mas, caso não tenha sido clara o suficiente, conto mais uma vez essa história que vocês provavelmente contarão muitas vezes para quem vier depois da gente. Estamos em quarentena por conta de uma pandemia causada pelo vírus Covid-19, o coronavírus. Começou lá na China, no fim do ano passado, e foi se espalhando pelo mundo todo. Foi preciso trancar todo mundo em casa para proteger as pessoas de uma coisa tão pequena e perigosa. O vírus nem é tão letal assim, mas a transmissão é rápida e pode sim matar.
Muitos países adotaram o lockdown, que é quando as pessoas são proibidas de verdade de sair, exceto para coisas essenciais e urgentes, como mercado e farmácia. Aqui no Brasil não foi bem assim. Parece - e os dados comprovam - que ninguém levou a quarentena muito a sério. Por isso mesmo hoje já somamos mais de 44 mil mortes. Triste, né? A nossa família - eu, vocês e o papai - escolheu se proteger e proteger nossas pessoas queridas. Isso significa que desde a primeira semana de março não abraçamos mais as vovós, não vamos mais na casa das pessoas, não saímos de casa sem máscara.
Estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para proteger as pessoas mais velhas que conhecemos - e o distanciamento social é a primeira coisa da lista. Quanto a nós quatro, nos trancamos em casa e saímos para poucas coisas, como feira, supermercado, corrida matinal e bicicleta na rua do nosso apartamento (que é sem saída e fica vazia depois das quatro da tarde). Protegemos também vocês dois do pânico que a situação causou. Ainda assim, optamos por contar tudo que está acontecendo, explicar o que vocês perguntam e falar sobre o assunto sempre que ele surge. Seria impossível - e insensível - esconder que o mundo ficou de cabeça para baixo.
Pode parecer difícil estar convivendo tão intensamente por tanto tempo, e é. Mas mesmo sem perceber a gente acabou organizando uma rotina nova, cuidando um do outro, redobrando a paciência. E vocês se mostraram mais incríveis do que a gente imaginava. Os dois têm encarado muito bem esse momento de confinamento e isso colabora muito para que a nossa casa tenha um clima de harmonia. De amor nos tempos do Covid.
Depois de passarem um ano e meio divididos entre uma correria de escola, casas das avós e finalmente nossa casa ao fim do dia, era natural que tivessem saudade de ficar tranquilos no próprio quarto ou na sala, com seus brinquedos e livros. Já estava nos nossos planos ter uma vida menos agitada em 2020 (juro que não sabia da pandemia!). No começo do ano eu tinha promovido uma grande arrumação nos armários e nós achamos muitas coisas legais, que vocês nem lembravam mais. Tenho trabalhado como freelancer e isso me dá flexibilidade de horário. Papai trabalha com horário, mas em home office.
Juntem a isso a sorte de estarem em dois, e de terem idades parecidas. E de serem pessoas calmas, compreensivas e que sabem se entreter com pouco. Aliás, esse talento de vocês foi a peça-chave para sobrevivermos a mais de 80 dias em um apartamento (que não é pequeno, mas é um apartamento). Papai e eu também nos divertimos lendo, conversando, cozinhando receitas novas. Vocês cresceram sem tanta televisão ou iPad e justamente por isso sabem brincar. E é disso que eu quero falar. Quero registrar quais são as coisas que vocês têm feito, as brincadeiras, as músicas, a maneira que temos vivido esse tempo tão diferente.
Futebol de corredor
Não sei nem se dá 6 metros, mas o corredor de entrada da casa é o lugar ideal para um futebolzinho de meio de dia. A porta é um gol, as pernas da poltrona é outro. O campo é livre e geralmente vocês dois formam um time super empolgado - especialmente a Maria Luísa, que é quem sempre chama a galera para jogar. Tão animado que o vizinho da frente postou uma reclamação no grupo do condomínio no Whatsapp. Azar dele, já que a gente não pode usar outras áreas do prédio e o jogo tem que continuar.
Caçadores da arca no vulcão de uma galáxia distante
Nem o brinquedo mais caro do mundo tira o reinado do leão de plástico, que era do tio Fabinho e hoje faz companhia para os inúmeros outros animais de plástico que moram em um dos baldes da sala. Eles fazem companhia para os integrantes da Patrulha Canina, as princesas da Frozen e um bonequinha horrorosa chamada Lol Surprise. As duras batalhas já fizeram muitos dos cachorros perderem orelhas ou pés, mas nada que os impeça de continuar a atuar como caçadores em um lugar cheio de lavas e ameaçado pelo Shere Khan, o tigre malvado do filme do Mogli, que aqui em casa é representado pelo Gato Guerreiro, o tigre amigo do He Man, que vocês não fazem ideia de quem seja. A imaginação de vocês é gigante, invejável e todos os dias vocês se olham e falam: "vamos brincar de caçadores?", e começam a criar um mundo cheio de 'finge que'.
Aulas virtuais
Ainda em março, quando as aulas presenciais foram suspensas, a escola de vocês tentou implantar o estudo à distância. Não deu certo. Ninguém sabia como fazer, nem escola (que é construtivista) nem famílias. Eu me dei conta que vocês não sabiam usar o mouse, olha só. Nasceram na era do touch screen (diferente de mim e do papai, que nascemos na era da folha de papel almaço). Por fim todo mundo entrou de férias em abril e em maio tudo recomeçou, muito mais estruturado. Vocês aprenderam a usar o computador e a ver os amigos pela tela. Pedro, você, aos 7 anos, tem aulas virtuais de matemática, práticas de linguagem, ciências, música, inglês e muitas outras. Maria, aos 4 anos, ouve histórias, aprende a fazer dobraduras, pinturas, colagens e sons. Tudo da sala de jantar, onde de segunda a sexta estão os computadores e todos os livros e materiais que vão ser usados na semana. Papai e eu nos revezamos para ajudar e tem dado tudo certo (apesar de às vezes ficarmos meio confusos com tanta coisa ao mesmo tempo). Não é o ideal, mas é o que podemos fazer hoje. A escola tem se esforçado e nós também. Temos sorte de vocês serem inteligentes e interessados, de sempre participarem das atividades e de aprenderem mesmo quando não estão estudando.
Leiturinha e a necessidade de rotina
Criança gosta e precisa de rotina e aqui em casa sempre fomos comprometidos com isso. Eu também adoro, não vou mentir. Mas ficar em casa o tempo todo cansa pouco - as crianças, claro. Nós, adultos, ficamos acabados. Todo mundo acorda um pouco mais tarde, não se movimenta muito durante o dia e não tem sono na hora de dormir. Vocês iam para a cama às 8 e meia da noite a agora vão às nove e meia. O jantar também ficou para mais tarde, o almoço do fim de semana nem se fala. Mas se tem uma coisa que tem que acontecer todo santo dia é a leiturinha da Maria. E acontece com ritual: coberta, almofadas, bichos de pelúcia e um gibi cuidadosamente escolhido. Vocês têm amado ler gibi. Maria, que ainda não lê, prefere Turma da Mônica. Pedro, leitor há mais tempo, gosta da Mônica mas adora também Tio Patinhas, Asterix e Obelix, Calvin, Snoopy e o que achar pela casa. À noite a escolha é sempre de um livro, que papai ou eu lemos para os dois antes de dormirem. É tão bonitinho ver vocês se arrumando na cama da Maria para ouvir a história, mesmo que seja dos Três Porquinhos (a favorita da Maria há uns anos já).
Caetanear o que há de bom
Outra coisa legal que acabou acontecendo naturalmente e que marca as nossas semanas é que no sábado e no domingo sempre tem música em casa. Eu confesso que gosto do silêncio, mas papai e vocês são super musicais e amam ouvir alguma coisa na hora do almoço, do futebolzinho ou do quebra-cabeça na mesa de jantar. E essa alguma coisa é 95% das vezes Caetano Veloso. Até o Spotify já entendeu nossa
Quando tudo isso acabar - e a gente não sabe quando vai ser -, espero que vocês tenham boas memórias do tempo que passamos juntos. Nem todo dia é lindo, claro, e temos consciência que lá fora tem gente em situação bem difícil. De qualquer forma, é um grande desafio essa convivência intensa, mas fico feliz que temos tido bons momentos e estamos mais próximos do que nunca. Que honra poder passar a quarentena com vocês.
domingo, 3 de maio de 2020
7 anos
Querido filho Pedro,
Mais uma vez demorei para escrever seu relato de aniversário. Desta vez não posso culpar a falta de tempo ou o excesso de trabalho, mas mesmo com essa super desacelerada da vida os dias têm passado tão depressa. A gente se envolve nas nossas pequenas (?) atividades e quando vê já é hora do jantar, do banho, da cama. Mesmo que o banho e a cama tenham acontecido tão mais tarde do que estávamos acostumados. Tudo mudou em relação ao que estávamos acostumados.
Fico pensando quanta literatura, quantos relatos virão dessa época. O que vai ser daqui pra frente? Vai tudo mudar mesmo? Como é que a história vai tratar tudo isso? Estamos em plena pandemia, filho, uma doença chamada Covid-19, ou coronavírus, infectou muitas e muitas pessoas no mundo todo. Começou lá na China e rapidamente se espalhou para todos os outros países. A gente nunca tinha visto nada assim, a última doença que fez tantas vítimas e numa escala tão global foi a gripe espanhola, acho, lá por volta de 1918. Nem o Vô Zito, seu bisavô, tinha nascido ainda.
Eu disse esses dias no lanche da tarde que vocês contariam essa história para seus netos. Você fez umas contas pra saber como que tinha netos e ficou bravo, falando que não teria filhos e consequentemente netos. Bom, escolha sua e eu respeito, mas eu já tenho vocês e quero sim contar tudo isso que está acontecendo. Mesmo porque a gente passou até por uma pequena aventura, quando quase ficamos presos na Argentina, sem voo para voltar para casa. Dito tudo isso, o que quero registrar hoje (meio atrasada, mas é a vida) é a comemoração do seu aniversário de 7 anos e os marcos importantes que venho observando em você.
Esse foi o ano em que te vi mais animado para comemorar seu aniversário com seus amigos da escola. Sugeri não fazer nada, só um bolinho com os avós em casa, mas você insistiu muito em convidar os meninos e meninas da sua classe para brincar na chácara do vovô. Chegamos até a convidá-los. Mas daí veio o coronavírus e mudou todos os planos. E na semana de 25 de março todo mundo estava muito tenso com tudo isso, com medo de se contaminar, tentando entender qualé que era dessa quarentena. E a gente tinha voltado há pouco tempo de uma viagem internacional (chegamos na noite do dia 19), o que deixava tudo mais complicado ainda.
Mas sabe, Pedro, as coisas acabaram acontecendo de um jeito tão bonito e singelo. E você encarou tudo isso tão bem, com seu ar sereno (beirando o blasé). Foi muito legal, no fim das contas, comemorar seu aniversário assim. Fizemos um bolo grande, com recheio e cobertura de brigadeiro, fizemos brigadeiros também, que ficaram meio duros porque eu nunca sei o ponto certo. E convidamos todos os seus brinquedos de animais para a festa-lanche da tarde, os de plástico e os de pelúcia. Colocamos os chapeuzinhos neles que tínhamos feito durante a semana e a mesa da sala de jantar ficou linda, cheia de coisa enfeitada. De pessoas, eu, você, o papai e a Maria.
Durante o dia seus amigos da escola mandaram vídeos te dando parabéns, meus irmãos e meus tios fizeram chamadas de vídeo com você. Olha aí a tecnologia sendo mais útil do que nunca. Na hora do parabéns conectamos os tios e avós nos celulares e cantamos todos juntos. A gente ficou tão imerso com os preparativos a semana inteira, e passou o dia tão rodeado de amor - vindo do celular - que você se sentiu bem, feliz. Amado, porque realmente é. Fez 7 anos, meu amor.
Como sempre fiz (e sempre atrasada), vou listar alguns fatos sobre você para lembrarmos quando você for grande. Vamos lá?
- quer se cineasta e biólogo. Chegou nessas duas profissões depois de pensar muito e parece bem decidido. Sobre a biologia, ama estudar em seus livros sobre animais e natureza. Sobre o cinema, tem tido ideias incríveis e engraçadas sobre filmes que vai gravar, tipo umas misturas de Star Wars com Turma da Mônica.
- tem passado muito tempo brincando com brinquedos com sua irmã na sala (e nos quartos, que vocês gostam de espalhar coisas pela casa toda. Mas é quarentena e pode). Pelo que eu ouço, vocês fazem umas reproduções de filmes do Star Wars e colocam personagens de outros filmes juntos, tipo o Shere Kahn, o tigre vilão do Mogli, e a galera da Patrulha Canina.
- está alto e magrelo, um menino grande. Tivemos no pediatra duas vezes esse ano, uma em janeiro, para a consulta regular do ano, e outra no fim de abril, para tentar resolver uma tossinha seca que te acompanha há muitos meses. No começo do ano estava com 1,24 cm e 23,3 kg; na semana passada já estava com 1,25 cm e 23,9 kg. Excelente na curva!
- tem feito tudo sozinho, sem nenhuma ajuda nossa: toma banho, se veste, escova os dentes, arruma a cama, guarda sapatos e brinquedos, faz o prato no almoço e jantar.
- ajuda nas coisas da casa quando eu peço, mas não adora. Dá uma bufadinha, tenta escapar, mas ajuda. Cara, nem eu gosto. Mas tem que fazer, né? Eu geralmente peço para secar e guardar louça, colocar a mesa, tirar a mesa depois das refeições e levar o cesto de roupa suja na lavanderia.
- é muito, muito bom em jogos tipo Lince (de achar figuras no tabuleiro), quebra-cabeça, jogo da memória, jogo da velha. Eu jogo super sério com você, pra ganhar, e nem sempre ganho.
- ama ama AMA desenhar. Nesses dias de quarentena e de férias da escola, tem desenhado bastante. O tema favorito é aquela mistura de Turma da Mônica com Star Wars. Faz páginas e páginas no caderno e em sulfites. E também faz umas versões de bichos como super-heróis, umas invenções criativas assim. E sempre vem mostrar pra gente, super orgulhoso. Ah, não gosta de pintar. Desenha de lápis grafite em papel branco. Tem treinado fazer ângulos diferentes da mesma coisa (de um leão, por exemplo), e é realmente legal.
- lê bastante, todos os dias, mas só as coisas que gosta. Gibis da Mônica e livros do Tio Patinhas e do Asterix são os favoritos do momento. Gosta também do livro de recordes e dos livros de animais. Os livros da escola, que eu já mandei ler, não quer nem abrir. Mas né, você lê há bastante tempo, desde os 4 anos, e na sua classe é quem está mais avançado. Não me preocupo, mas bem que eu queria que lesse logo Clarice Lispector e o que mais a professora indicou.
- é tranquilo, calmo, não se estressa por muita coisa. Raramente chora ou fica triste. Passa o dia de boa em casa. Brinco que é a pessoa mais bem-adaptada à quarentena, porque ama ficar de boa em casa, lendo e desenhando. Pergunto se está com saudade da escola e dos amigos e a resposta é sempre 'não'.
- está super confiante e andando bem de bicicleta (embora a sua bike esteja meio pequena pra você já). Como estamos nesse momento de coronavírus, só podemos sair na rua de casa, que é sem saída, mas mesmo lá você tem ido super bem.
- gosta de ver TV, mas vocês não assistem todo dia. E não pedem, não reclamam, nem percebem que não assistiram. E estão aprendendo uma coisa louca que é ligar num canal infantil e ver o que está passando, aleatoriamente. Digo louca porque vocês cresceram na era do Netflix, escolhendo quando e o que ver, diferente de mim.
- tem muita criatividade e sabe ficar no ócio sem achar isso chato, o que tem sido incrível nessa quarentena. Isso te faz ficar tranquilo, tendo ideias boas e se divertindo com pouco. Não precisa de brinquedos caros ou eletrônicos para se virar bem.
- é a pessoa mais carinhosa e amorosa do mundo inteiro <3
Mais uma vez demorei para escrever seu relato de aniversário. Desta vez não posso culpar a falta de tempo ou o excesso de trabalho, mas mesmo com essa super desacelerada da vida os dias têm passado tão depressa. A gente se envolve nas nossas pequenas (?) atividades e quando vê já é hora do jantar, do banho, da cama. Mesmo que o banho e a cama tenham acontecido tão mais tarde do que estávamos acostumados. Tudo mudou em relação ao que estávamos acostumados.
Fico pensando quanta literatura, quantos relatos virão dessa época. O que vai ser daqui pra frente? Vai tudo mudar mesmo? Como é que a história vai tratar tudo isso? Estamos em plena pandemia, filho, uma doença chamada Covid-19, ou coronavírus, infectou muitas e muitas pessoas no mundo todo. Começou lá na China e rapidamente se espalhou para todos os outros países. A gente nunca tinha visto nada assim, a última doença que fez tantas vítimas e numa escala tão global foi a gripe espanhola, acho, lá por volta de 1918. Nem o Vô Zito, seu bisavô, tinha nascido ainda.
Eu disse esses dias no lanche da tarde que vocês contariam essa história para seus netos. Você fez umas contas pra saber como que tinha netos e ficou bravo, falando que não teria filhos e consequentemente netos. Bom, escolha sua e eu respeito, mas eu já tenho vocês e quero sim contar tudo isso que está acontecendo. Mesmo porque a gente passou até por uma pequena aventura, quando quase ficamos presos na Argentina, sem voo para voltar para casa. Dito tudo isso, o que quero registrar hoje (meio atrasada, mas é a vida) é a comemoração do seu aniversário de 7 anos e os marcos importantes que venho observando em você.
Esse foi o ano em que te vi mais animado para comemorar seu aniversário com seus amigos da escola. Sugeri não fazer nada, só um bolinho com os avós em casa, mas você insistiu muito em convidar os meninos e meninas da sua classe para brincar na chácara do vovô. Chegamos até a convidá-los. Mas daí veio o coronavírus e mudou todos os planos. E na semana de 25 de março todo mundo estava muito tenso com tudo isso, com medo de se contaminar, tentando entender qualé que era dessa quarentena. E a gente tinha voltado há pouco tempo de uma viagem internacional (chegamos na noite do dia 19), o que deixava tudo mais complicado ainda.
Mas sabe, Pedro, as coisas acabaram acontecendo de um jeito tão bonito e singelo. E você encarou tudo isso tão bem, com seu ar sereno (beirando o blasé). Foi muito legal, no fim das contas, comemorar seu aniversário assim. Fizemos um bolo grande, com recheio e cobertura de brigadeiro, fizemos brigadeiros também, que ficaram meio duros porque eu nunca sei o ponto certo. E convidamos todos os seus brinquedos de animais para a festa-lanche da tarde, os de plástico e os de pelúcia. Colocamos os chapeuzinhos neles que tínhamos feito durante a semana e a mesa da sala de jantar ficou linda, cheia de coisa enfeitada. De pessoas, eu, você, o papai e a Maria.
Durante o dia seus amigos da escola mandaram vídeos te dando parabéns, meus irmãos e meus tios fizeram chamadas de vídeo com você. Olha aí a tecnologia sendo mais útil do que nunca. Na hora do parabéns conectamos os tios e avós nos celulares e cantamos todos juntos. A gente ficou tão imerso com os preparativos a semana inteira, e passou o dia tão rodeado de amor - vindo do celular - que você se sentiu bem, feliz. Amado, porque realmente é. Fez 7 anos, meu amor.
Como sempre fiz (e sempre atrasada), vou listar alguns fatos sobre você para lembrarmos quando você for grande. Vamos lá?
- quer se cineasta e biólogo. Chegou nessas duas profissões depois de pensar muito e parece bem decidido. Sobre a biologia, ama estudar em seus livros sobre animais e natureza. Sobre o cinema, tem tido ideias incríveis e engraçadas sobre filmes que vai gravar, tipo umas misturas de Star Wars com Turma da Mônica.
- tem passado muito tempo brincando com brinquedos com sua irmã na sala (e nos quartos, que vocês gostam de espalhar coisas pela casa toda. Mas é quarentena e pode). Pelo que eu ouço, vocês fazem umas reproduções de filmes do Star Wars e colocam personagens de outros filmes juntos, tipo o Shere Kahn, o tigre vilão do Mogli, e a galera da Patrulha Canina.
- está alto e magrelo, um menino grande. Tivemos no pediatra duas vezes esse ano, uma em janeiro, para a consulta regular do ano, e outra no fim de abril, para tentar resolver uma tossinha seca que te acompanha há muitos meses. No começo do ano estava com 1,24 cm e 23,3 kg; na semana passada já estava com 1,25 cm e 23,9 kg. Excelente na curva!
- tem feito tudo sozinho, sem nenhuma ajuda nossa: toma banho, se veste, escova os dentes, arruma a cama, guarda sapatos e brinquedos, faz o prato no almoço e jantar.
- ajuda nas coisas da casa quando eu peço, mas não adora. Dá uma bufadinha, tenta escapar, mas ajuda. Cara, nem eu gosto. Mas tem que fazer, né? Eu geralmente peço para secar e guardar louça, colocar a mesa, tirar a mesa depois das refeições e levar o cesto de roupa suja na lavanderia.
- é muito, muito bom em jogos tipo Lince (de achar figuras no tabuleiro), quebra-cabeça, jogo da memória, jogo da velha. Eu jogo super sério com você, pra ganhar, e nem sempre ganho.
- ama ama AMA desenhar. Nesses dias de quarentena e de férias da escola, tem desenhado bastante. O tema favorito é aquela mistura de Turma da Mônica com Star Wars. Faz páginas e páginas no caderno e em sulfites. E também faz umas versões de bichos como super-heróis, umas invenções criativas assim. E sempre vem mostrar pra gente, super orgulhoso. Ah, não gosta de pintar. Desenha de lápis grafite em papel branco. Tem treinado fazer ângulos diferentes da mesma coisa (de um leão, por exemplo), e é realmente legal.
- lê bastante, todos os dias, mas só as coisas que gosta. Gibis da Mônica e livros do Tio Patinhas e do Asterix são os favoritos do momento. Gosta também do livro de recordes e dos livros de animais. Os livros da escola, que eu já mandei ler, não quer nem abrir. Mas né, você lê há bastante tempo, desde os 4 anos, e na sua classe é quem está mais avançado. Não me preocupo, mas bem que eu queria que lesse logo Clarice Lispector e o que mais a professora indicou.
- é tranquilo, calmo, não se estressa por muita coisa. Raramente chora ou fica triste. Passa o dia de boa em casa. Brinco que é a pessoa mais bem-adaptada à quarentena, porque ama ficar de boa em casa, lendo e desenhando. Pergunto se está com saudade da escola e dos amigos e a resposta é sempre 'não'.
- está super confiante e andando bem de bicicleta (embora a sua bike esteja meio pequena pra você já). Como estamos nesse momento de coronavírus, só podemos sair na rua de casa, que é sem saída, mas mesmo lá você tem ido super bem.
- gosta de ver TV, mas vocês não assistem todo dia. E não pedem, não reclamam, nem percebem que não assistiram. E estão aprendendo uma coisa louca que é ligar num canal infantil e ver o que está passando, aleatoriamente. Digo louca porque vocês cresceram na era do Netflix, escolhendo quando e o que ver, diferente de mim.
- tem muita criatividade e sabe ficar no ócio sem achar isso chato, o que tem sido incrível nessa quarentena. Isso te faz ficar tranquilo, tendo ideias boas e se divertindo com pouco. Não precisa de brinquedos caros ou eletrônicos para se virar bem.
- é a pessoa mais carinhosa e amorosa do mundo inteiro <3
quarta-feira, 29 de abril de 2020
Sonho
"Mamãe, eu tive um sonho muito bom hoje. Sonhei que eu e o Pedro fazíamos uma bagunça infinita na casa, com todos os brinquedos do quarto e da sala. E a gente não precisava guardar nunca, nem de dia nem de noite, e não tinha papai e mamãe. Era só ficar brincando, brincando, brincando..."
Maria Luísa, 4 anos e 8 meses, em casa desde março por conta da pandemia de coronavírus
Maria Luísa, 4 anos e 8 meses, em casa desde março por conta da pandemia de coronavírus
quinta-feira, 9 de abril de 2020
Paciência is the answer
Ter filho é fácil, difícil é educar. Já dizia meu marido que aqueles cursinhos que ensinam os futuros pais a trocar fraldas não servem para nada. Deveriam concentrar a grade curricular em ensinar a criar pessoas respeitosas, curiosas, educadas, boas mas não bobas, felizes porém conscientes, e assim por diante.
Dado isso, estamos em casa com uma criança de 7 anos pela primeira vez. E não sabemos o que fazer com uma criança de 7 anos justamente porque é a primeira vez que nos deparamos com essa situação. Mas apesar de parecer assustadora dito assim, é também uma questão muito interessante e motivante. Desafiadora, diríamos se estivéssemos em uma multinacional (eles adoram essa palavra lá).
Independente disso, essa semana confirmei o que eu já suspeitava há uns sete anos, mais ou menos: é preciso ter paciência quando se tem filhos. Educar é ter paciência. E persistência. E amor e respeito e jeito também, caso queira o pacote completo. Não se pode achar que as crianças nascem sabendo as coisas, ainda mais coisas que são regras sociais. Ou seja, que não são óbvias. Que se aprende vivendo um certo tempo em determinada sociedade. Não dá para comparar quem já viveu mais de 30 anos com quem chegou agora.
Pedro está em uma fase de construir suas soluções. Emprestei essas palavras da psicóloga dele, que é a pessoa que ajuda pais que fizeram os cursinhos que só ensinam a trocar fraldas. Ele precisava muito fortalecer sua autoestima e sua confiança nele mesmo para que pudesse aprender a se defender. E como quase tudo na vida, não existe fórmula ou resposta pronta para como se defender. É preciso construir sua própria maneira. E cada situação tem sua particularidade.
Há dias confinados em casa por conta da pandemia do coronavírus, Pedro e Maria Luísa às vezes se estranham. Bem poucas vezes, serei justa. Mas em uma dessas vezes ele se irritou com algo que ela fez e resolveu bater nela antes mesmo de reclamar. Chamei a atenção dele, disse que era mais legal argumentar e falar antes de agredir. Porque né, vai ver ela não sabia que estava fazendo uma coisa chata (ela sabia) e era preciso avisá-la (não era). Ele emburrou, choramingou e saiu de perto. Quando se aproximou de mim de novo, aproveitei que estava em um dia de muita paciência e expliquei novamente a mesma coisa: fala antes, quem sabe resolve. Bater não é legal, deixa como última opção. Ouviu tudo bufando (nova mania pré-pré-adolescente dele) e disse: discordo.
Desafiador, como eu disse. Ele tem direito de discordar. Né? Mesmo quando eu estou certa. Ok, respondi. Passou o tempo, eles voltaram a ser melhores amigos para sempre e a paz voltou a reinar no confinamento. Antes do jantar, os dois me ajudavam a colocar a mesa e falávamos algo sobre castelos de verdade da nossa imaginação. Como seriam, onde estariam, quem moraria.
E aí Pedro me sai com essa: no meu castelo teria uma regra muito importante. Quem usasse violência seria preso, menos as crianças. Ahn? Sim, as crianças ainda estão aprendendo que é preciso falar e tentar resolver as coisas com conversa, ele explicou, e por isso elas não poderiam ser presas. Os adultos já sabem disso, e se mesmo assim fossem violentos, deveriam ir direto para a prisão do castelo. Excelente regra, concordamos todos.
Como eu disse, paciência. Essa é a chave para viver, para ensinar e para aprender. Em alguns casos levamos anos para entender algumas coisas e outras vezes a lição cai na nossa cara na hora. Às vezes é no intervalo entre o lanche da tarde e o jantar que as respostas chegam. E tem coisa que não aprendemos nunca, mas isso é outro tema. Ninguém sabe tudo e é uma baita sorte ter alguém que nos explique da melhor forma possível (eu, no caso). E faz bem também entender que é preciso tempo para assimilar o que se aprende.
Dado isso, estamos em casa com uma criança de 7 anos pela primeira vez. E não sabemos o que fazer com uma criança de 7 anos justamente porque é a primeira vez que nos deparamos com essa situação. Mas apesar de parecer assustadora dito assim, é também uma questão muito interessante e motivante. Desafiadora, diríamos se estivéssemos em uma multinacional (eles adoram essa palavra lá).
Independente disso, essa semana confirmei o que eu já suspeitava há uns sete anos, mais ou menos: é preciso ter paciência quando se tem filhos. Educar é ter paciência. E persistência. E amor e respeito e jeito também, caso queira o pacote completo. Não se pode achar que as crianças nascem sabendo as coisas, ainda mais coisas que são regras sociais. Ou seja, que não são óbvias. Que se aprende vivendo um certo tempo em determinada sociedade. Não dá para comparar quem já viveu mais de 30 anos com quem chegou agora.
Pedro está em uma fase de construir suas soluções. Emprestei essas palavras da psicóloga dele, que é a pessoa que ajuda pais que fizeram os cursinhos que só ensinam a trocar fraldas. Ele precisava muito fortalecer sua autoestima e sua confiança nele mesmo para que pudesse aprender a se defender. E como quase tudo na vida, não existe fórmula ou resposta pronta para como se defender. É preciso construir sua própria maneira. E cada situação tem sua particularidade.
Há dias confinados em casa por conta da pandemia do coronavírus, Pedro e Maria Luísa às vezes se estranham. Bem poucas vezes, serei justa. Mas em uma dessas vezes ele se irritou com algo que ela fez e resolveu bater nela antes mesmo de reclamar. Chamei a atenção dele, disse que era mais legal argumentar e falar antes de agredir. Porque né, vai ver ela não sabia que estava fazendo uma coisa chata (ela sabia) e era preciso avisá-la (não era). Ele emburrou, choramingou e saiu de perto. Quando se aproximou de mim de novo, aproveitei que estava em um dia de muita paciência e expliquei novamente a mesma coisa: fala antes, quem sabe resolve. Bater não é legal, deixa como última opção. Ouviu tudo bufando (nova mania pré-pré-adolescente dele) e disse: discordo.
Desafiador, como eu disse. Ele tem direito de discordar. Né? Mesmo quando eu estou certa. Ok, respondi. Passou o tempo, eles voltaram a ser melhores amigos para sempre e a paz voltou a reinar no confinamento. Antes do jantar, os dois me ajudavam a colocar a mesa e falávamos algo sobre castelos de verdade da nossa imaginação. Como seriam, onde estariam, quem moraria.
E aí Pedro me sai com essa: no meu castelo teria uma regra muito importante. Quem usasse violência seria preso, menos as crianças. Ahn? Sim, as crianças ainda estão aprendendo que é preciso falar e tentar resolver as coisas com conversa, ele explicou, e por isso elas não poderiam ser presas. Os adultos já sabem disso, e se mesmo assim fossem violentos, deveriam ir direto para a prisão do castelo. Excelente regra, concordamos todos.
Como eu disse, paciência. Essa é a chave para viver, para ensinar e para aprender. Em alguns casos levamos anos para entender algumas coisas e outras vezes a lição cai na nossa cara na hora. Às vezes é no intervalo entre o lanche da tarde e o jantar que as respostas chegam. E tem coisa que não aprendemos nunca, mas isso é outro tema. Ninguém sabe tudo e é uma baita sorte ter alguém que nos explique da melhor forma possível (eu, no caso). E faz bem também entender que é preciso tempo para assimilar o que se aprende.
domingo, 29 de março de 2020
Muito difícil, mas muito legal
"Nossa, deve ser muito difícil ser mãe. Lavar louça, cozinhar, tirar a roupa do varal e ainda ter que dar amor e carinho para os filhos! Nossa, é muita coisa."
Pedro
26 de março de 2020
Pedro
26 de março de 2020
segunda-feira, 23 de março de 2020
A melhor parte de viajar
O que mais gosto das nossas viagens de família é passar um tempo só nós quatro em situações completamente diferentes do cotidiano. E conhecer novos lugares e ficar sem lavar louça também, mas enfim, acho uma chance incrível da gente se conectar e se conhecer mais, além de ter assuntos que são nossos e coisas que só nós vivemos. E, claro, as pérolas das crianças. Essas são da Maria Luísa.
Estávamos sentados em (mais um) restaurante à espera do jantar, desta vez em El Chalten, nosso terceiro destino da viagem. Inventei (mais um) um jogo de letras para distrair as crianças, mas Maria Luísa, apesar da empolgação, não estava acertando muito as respostas. Quando pedi uma palavra com a letra B, Pedro resolveu ajudar. "Vai, Maria, o que tem na cara do papai?". Ela olhou para o Juliano, que está há dias com sinusite e gripe, tossindo sem parar, e gritou: "Tosse??? Virose???". Foi tão espontâneo e engraçado, o Pedro riu tanto que nem conseguiu contar pra ela que a resposta era barba.
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Vendo pela milésima vez a revista da Aerolíneas Argentinas no avião, eu e Maria nos deparamos com uma foto de mulheres usando os lenços verdes e roxos das manifestações feministas do país. Eu achei super legal e lembrei que vimos muitas mulheres protestando no dia 8 de março em San Telmo e na Plaza de Mayo, em Buenos Aires. Ela começou a rir e falou "ah, eu lembro, foi tão engraçado, todas elas gritando 'arrotamos, arrotamos'. Ri, claro, mas quando chegar a hora certa vou explicar direitinho o que elas estavam fazendo por todas nós, mulheres, e por que gritavam 'abortemos'.
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Cansados da viagem de mais de 3 horas de carro, chegamos ao hotel em El Chalten e fomos direto para o quarto relaxar um pouco e comer nossos sanduíches. As crianças abriram a porta e Maria Luísa viu que só tinham três camas e, veja só, nós somos em quatro pessoas. Toda trabalhada na autoestima e sem dar a mínima para o fato que a última a chegar na família foi justamente ela, gritou: "Ixi, só tem três camas! Coitado do papai, não tem onde dormir hoje."
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Vendo pela milésima vez a revista da Aerolíneas Argentinas no avião, eu e Maria nos deparamos com uma foto de mulheres usando os lenços verdes e roxos das manifestações feministas do país. Eu achei super legal e lembrei que vimos muitas mulheres protestando no dia 8 de março em San Telmo e na Plaza de Mayo, em Buenos Aires. Ela começou a rir e falou "ah, eu lembro, foi tão engraçado, todas elas gritando 'arrotamos, arrotamos'. Ri, claro, mas quando chegar a hora certa vou explicar direitinho o que elas estavam fazendo por todas nós, mulheres, e por que gritavam 'abortemos'.
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Cansados da viagem de mais de 3 horas de carro, chegamos ao hotel em El Chalten e fomos direto para o quarto relaxar um pouco e comer nossos sanduíches. As crianças abriram a porta e Maria Luísa viu que só tinham três camas e, veja só, nós somos em quatro pessoas. Toda trabalhada na autoestima e sem dar a mínima para o fato que a última a chegar na família foi justamente ela, gritou: "Ixi, só tem três camas! Coitado do papai, não tem onde dormir hoje."
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