quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Escritora

Maria Luísa já aprendeu a escrever algumas palavras e tem usado essa nova habilidade para se comunicar. Nesta semana, ela e o Pedro brigaram por algum motivo bobo e ela se sentiu meio mal de ter chateado o irmão. Correu pegar uma folha de sulfite, escreveu "EU SOU PECIMA" e entregou a ele. Pedro ficou tão comovido com a mensagem que amassou a folha com força e gritou: você não é péssima, Maria! E eles se abraçaram.

Foi lindo, gente.

Claro que voltaram a brigar de novo depois de uns minutos, mas foi lindo pelo tempo que durou.

domingo, 2 de agosto de 2020

Como nossos pais

A gente sempre se gabou de apresentar música boa aos nossos filhos. O Juliano, principalmente. E música boa é uma coisa ABSOLUTAMENTE relativa. Boa para ele. Para nós, no máximo. Mas o ponto que quero chegar é esse: ouvimos, na nossa casa, Caetano Veloso (em modo repeat enlouquecido), Milton Nascimento, Gilberto Gil, Gal Costa, Chico Buarque, Belchior, Novos Baianos, Beatles, Rolling Stones, Etta James, Louis Armstrong e muitas ouras coisas... antigas. Aos dois anos de idade, Pedro cantava de cor várias músicas do Dorival Caymmi. E nós dois felizes da vida, com cara de trabalho concluído com sucesso.

Nunca nos passou pela cabeça que isso poderia ser um problema, em vez de um trunfo. Tipo colocar essas pobres crianças em situações não tão boas assim. Não digo ruins, mas estranhas, pelos menos. Foi só na semana passada que nos demos conta disso. No encontro online da escola do Pedro, um amigo perguntou se poderia dançar no fim da aula, pela câmera mesmo. A professora concordou e meu filho se ofereceu para colocar a música. Saiu correndo para a cozinha, pegou meu celular, ligou o Spotify e digitou na busca: Chet Baker. Sim, essa criança colocou um jazz para os amigos ouvirem.

Eu não vi as caras das pessoas no computador, mas imagino que não devem ter entendido nada. O menino que queria dançar gritou: "que música é essa? Alguém coloca uma MÚSICA para eu dançar?". A professora riu e ligou um Justin Timberlake. Ou Pharrel Willians. Ou um terceiro que nem o nome eu sei ainda. Todo mundo dançou e foi o Pedro que ficou com uma cara de "que música é essa?". Mas ele gostou, achou divertida. Nem precisou nos contar o que tinha acontecido. Eu parei de arrumar as camas na mesma hora para assistir todo o show. 

Ontem olhou para o Juliano e perguntou: "por que a gente só ouve música antiga? Por que eu não conheço nenhuma música nova?". Foi engraçado e triste ao mesmo tempo. A gente caiu na real, sete anos depois. Mas a resposta do Juliano foi curiosa e sincera, acabei concordando. "Eu sou seu pai, não é meu papel te apresentar coisas novas. Isso você aprende com amigos, na escola, na rua". A gente é a geração anterior, a gente é velho. Viramos nossos pais. Esse dia ia chegar e ele chegou. Agora, são nossos filhos que trazem as coisas novas pra casa, não a gente.

Isso me fez pensar seriamente no isolamento social e em como as crianças saem perdendo com essa situação. Não só porque não aprenderam direito matemática, ciências ou práticas de leitura, mas porque não convivem com outras pessoas, com outras crianças, de outras idades e outros backgrounds. Eles estão no ápice da bolha. O mundo deles é a casa. Pensei em todas as crianças que estudam em homeschooling mesmo fora da pandemia, em como eles ficam deslocados na realidade. Igual no filme do Capitão Fantástico. 

O Capitão Fantástico e as esquisitices que só o isolamento permite. 
Spoiler: até ele resolve matricular as crianças na escola no fim do filme.

Lembrei também do ano passado, quando nós dois estávamos trabalhando fora o dia todo e as crianças tinham que ficar na escola em período integral. Apesar de todos os problemas que vejo nisso, e não são poucos, sinto que tem uma parte positiva muito importante, que é a convivência com o mundo. Foi quando o Pedro pediu o álbum de figurinhas do Fortnight, me ensinou os nomes das Beyblades, aprendeu uma música do Michael Jackson e tantas outras coisas que nem lembro mais. Ainda mais ele, que é o primeiro filho e neto em duas famílias sem crianças. Não tem um único primo mais velho para ensinar besteira. Como eu fui. O mundo dele, em casa, é feito de adultos e de uma irmã menor. Que falta faz a escola.

Até coloquei Dua Lipa no Spotify, fingindo que eu sou cool e que sou a opção mais jovem da casa. Mas não rolou. Eu mesma não conhecia nenhuma música e ele pediu logo para voltar para o Caetano. Conviver é preciso, com o maior número de pessoas, de preferência de realidades mais diversas possíveis. A gente se forma assim, no contato com o outro, no mix de referências que vamos recebendo ao longo da vida. Nem todas são boas, e não me refiro só a Ludmilla ou Anitta, mas é como tem que ser se queremos que eles cresçam.

Maria cheia de novidades

Quarentena bombando por aqui ainda (na nossa casa, pelo menos; no resto das casas nem tanto) e Maria Luísa está nos surpreendendo com várias novidades.

A primeira delas é que aprendeu a ler e escrever! Sim, sim, minha gente, essa menininha esperta está completamente envolvida com as letras. Como estamos sem aulas desde março, todas as atividades estão acontecendo em casa, por isso podemos acompanhar de perto o desenvolvimento deles. Mas acho que isso é indiferente nesse caso. Ela foi mostrando interesse pelos livros e pelos gibis. 

Todo dia nos pede uma 'leiturinha', que é um gibi da Turma da Mônica escolhido por ela, em um lugar decidido por ela também, junto com uma cobertinha (apesar de estar fazendo 29°C em pleno inverno) e uns bichos de pelúcia. O fato é que a gente lê para eles todos os dias, mais de uma vez por dia. Além do gibi, tem o livro sagrado da noite (nada a ver com bíblia, não me entendam mal). E ela tem apreciado muito esses momentos.

Daí foi mostrando interesse em juntar as letras, em fazer jogos de palavras ("vamos falar palavras que começam com F") na hora do lanche da tarde, enfim, em saber como é que as coisas são escritas. E aconteceu super rápido, ela começou a nos perguntar, a testar algumas coisas no papel e está indo muito bem. Começou a soletrar palavras também, exatamente como o Pedro fazia na idade dela. Engraçado, porque eu acho soletrar uma coisa bem difícil. 

E a outra novidade é que Maria aprendeu também a andar de bicicleta sem rodinha! Ela não queria tirar a rodinha de jeito nenhum, então não insistimos. Mas sempre optava pelo patinete, que ela domina desde que era uma mini pessoa e anda muito, muito rápido. A bicicleta, que ela ganhou no aniversário do ano passado, a deixava meio lenta, desengonçada. Mas aí um dia, do nada, resolveu dar uma voltinha na do Pedro. Juliano ajudou (eu não sou boa nisso) e o Pedro ajudou muito também. Ele ficou muito feliz com o papel de irmão-mais-velho-professor-de-coisas-legais.

Ela adorou a emoção de usar a bicicleta do irmão e, de um dia para o outro, tomou coragem e foi. Que coisa linda assistir isso! Maria é super corajosa, esperta, tem uma desenvoltura física muito grande. Aprendeu inclusive a cair bem, sem se machucar tanto. Daí hoje fomos até uma rua sem saída perto da nossa casa, que é plana e vazia, e tiramos a rodinha da bicicleta dela. Foi demais! Pedro ajudou de novo e eles se divertiram bastante. 

É isso! Estamos em casa, provavelmente os únicos a levar a quarentena a sério ainda, mas cheios de novidades 😁

Crescer, verbo intransitivo

É no carro que nossas conversas mais aleatórias e curiosas acontecem. Acho que o fato de não ter outra distração senão olhar a rua faz com que as crianças deixem suas cabecinhas voarem longe. Dia desses, quando estávamos voltando de uma visita à distância (sim, porque a pandemia não acabou) da casa da avó, Maria Luísa disse que queria ser jornalista e guitarrista quando crescesse. Pedro riu e falou "mas e fada do dente, você não vai mais ser?". Expliquei que a gente sempre pode mudar de ideia quanto a isso, mesmo se já adultos. "O Tio Fabinho, por exemplo, pode cansar de ser advogado e virar surfista", imaginei (o que causou risinhos deles, mas essa piada só é válida para quem conhece meu irmão). 

Ficamos falando sobre profissões e sobre poder escolher. Eu disse que, antigamente, alguns pais convenciam os filhos a estudarem coisas que eles não gostavam, simplesmente porque queriam que fossem médicos, engenheiros ou dentistas. Mas que agora isso não é tão comum, no geral as pessoas podem decidir de acordo com o que gostam. Ele riu aliviado e falou "ainda bem que você e o papai não são assim e eu vou poder escolher meu próprio trabalho". Me senti o máximo por uns minutos, porém logo ele fez uma cara meio chateada. "O problema", explicou, "é que eu sou muito feliz sendo criança. Não queria ser adulto". 

Que frase incrível de ouvir. Apesar de compadecer desses dilemas existenciais do meu filho de 7 anos, eu fiquei tão aliviada em saber que ele está aproveitando bem a infância. Aproveitei meu dia didático e falei que ser adulto era legal também, cada coisa na sua hora. "Mas adulto não brinca!", bradou ele. "Eu brinco, ué. O papai brinca também". "Vocês têm filhos. Eu não quero ter filhos e então como vou brincar?". Essa é, de fato, uma questão. Eu não brincaria se eles não existissem. Esconde-esconde na garagem do prédio? Cabra-cega na sala? E as outras trezentas e quarenta e nove brincadeiras que fazemos juntos - sem a menor chance de fazer isso sem filhos. 

De qualquer forma, eu precisava acalmá-lo. Lembrei da escola, de todos os professores, dos tios deles e de algumas pessoas que brincam com crianças mesmo sem ter filhos. Ele fez uma cara de dúvida, mas satisfeito com a resposta. Está naquela fase do "nunca na vida vou me casar", sabe? A classe dele, quando as aulas eram presenciais, já tinha uma divisão natural de menino x menina. 

São tantas as etapas que a vida tem, e isso é tão lindo e assustador. Eles vão se transformando em pessoas diferentes a cada ano. Um ano na vida de uma criança é uma eternidade, um mundo de acontecimentos. Tudo bem se Pedro não quiser se casar, eu realmente não me importo com isso. E tudo bem se Maria Luísa quiser ser jornalista, embora eu ache que essa profissão vai passar por transformações definitivas nos próximos anos. Espero que a gente consiga ter a sabedoria de aceitá-los sempre, independente do que decidam fazer. 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Cada um sendo cada um

Dia desses, no fim da noite, as crianças montavam quebra-cabeça no chão e eu já estava começando a arrumação final da casa para a hora de dormir. Fiquei com dó de mandar os dois desmancharem o quebra-cabeça antes mesmo de terminarem e disse:
- Terminem de montar esse e logo depois guardem todos os brinquedos.

Maria Luísa se aproximou do Pedro e disse bem baixinho, cochichando:
- Pedro, vamos montar beeeem devagar...
- Não, Maria! Vamos montar rápido, a gente tem um monte de coisa para guardar depois!
- Ai, Pedro, que tipo de criança você é?


terça-feira, 16 de junho de 2020

Quarenteners

Queridos filhos,

Estamos há quase três meses em casa, vivendo as 24 horas do dia juntos. Devo ter citado em algum post anterior, mas, caso não tenha sido clara o suficiente, conto mais uma vez essa história que vocês provavelmente contarão muitas vezes para quem vier depois da gente. Estamos em quarentena por conta de uma pandemia causada pelo vírus Covid-19, o coronavírus. Começou lá na China, no fim do ano passado, e foi se espalhando pelo mundo todo. Foi preciso trancar todo mundo em casa para proteger as pessoas de uma coisa tão pequena e perigosa. O vírus nem é tão letal assim, mas a transmissão é rápida e pode sim matar.

Muitos países adotaram o lockdown, que é quando as pessoas são proibidas de verdade de sair, exceto para coisas essenciais e urgentes, como mercado e farmácia. Aqui no Brasil não foi bem assim. Parece - e os dados comprovam - que ninguém levou a quarentena muito a sério. Por isso mesmo hoje já somamos mais de 44 mil mortes. Triste, né? A nossa família - eu, vocês e o papai - escolheu se proteger e proteger nossas pessoas queridas. Isso significa que desde a primeira semana de março não abraçamos mais as vovós, não vamos mais na casa das pessoas, não saímos de casa sem máscara.

Estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para proteger as pessoas mais velhas que conhecemos - e o distanciamento social é a primeira coisa da lista. Quanto a nós quatro, nos trancamos em casa e saímos para poucas coisas, como feira, supermercado, corrida matinal e bicicleta na rua do nosso apartamento (que é sem saída e fica vazia depois das quatro da tarde). Protegemos também vocês dois do pânico que a situação causou. Ainda assim, optamos por contar tudo que está acontecendo, explicar o que vocês perguntam e falar sobre o assunto sempre que ele surge. Seria impossível - e insensível - esconder que o mundo ficou de cabeça para baixo.

Pode parecer difícil estar convivendo tão intensamente por tanto tempo, e é. Mas mesmo sem perceber a gente acabou organizando uma rotina nova, cuidando um do outro, redobrando a paciência. E vocês se mostraram mais incríveis do que a gente imaginava. Os dois têm encarado muito bem esse momento de confinamento e isso colabora muito para que a nossa casa tenha um clima de harmonia. De amor nos tempos do Covid.

Depois de passarem um ano e meio divididos entre uma correria de escola, casas das avós e finalmente nossa casa ao fim do dia, era natural que tivessem saudade de ficar tranquilos no próprio quarto ou na sala, com seus brinquedos e livros. Já estava nos nossos planos ter uma vida menos agitada em 2020 (juro que não sabia da pandemia!). No começo do ano eu tinha promovido uma grande arrumação nos armários e nós achamos muitas coisas legais, que vocês nem lembravam mais. Tenho trabalhado como freelancer e isso me dá flexibilidade de horário. Papai trabalha com horário, mas em home office.

Juntem a isso a sorte de estarem em dois, e de terem idades parecidas. E de serem pessoas calmas, compreensivas e que sabem se entreter com pouco. Aliás, esse talento de vocês foi a peça-chave para sobrevivermos a mais de 80 dias em um apartamento (que não é pequeno, mas é um apartamento). Papai e eu também nos divertimos lendo, conversando, cozinhando receitas novas. Vocês cresceram sem tanta televisão ou iPad e justamente por isso sabem brincar. E é disso que eu quero falar. Quero registrar quais são as coisas que vocês têm feito, as brincadeiras, as músicas, a maneira que temos vivido esse tempo tão diferente.

Futebol de corredor
Não sei nem se dá 6 metros, mas o corredor de entrada da casa é o lugar ideal para um futebolzinho de meio de dia. A porta é um gol, as pernas da poltrona é outro. O campo é livre e geralmente vocês dois formam um time super empolgado - especialmente a Maria Luísa, que é quem sempre chama a galera para jogar. Tão animado que o vizinho da frente postou uma reclamação no grupo do condomínio no Whatsapp. Azar dele, já que a gente não pode usar outras áreas do prédio e o jogo tem que continuar.

Caçadores da arca no vulcão de uma galáxia distante
Nem o brinquedo mais caro do mundo tira o reinado do leão de plástico, que era do tio Fabinho e hoje faz companhia para os inúmeros outros animais de plástico que moram em um dos baldes da sala. Eles fazem companhia para os integrantes da Patrulha Canina, as princesas da Frozen e um bonequinha horrorosa chamada Lol Surprise. As duras batalhas já fizeram muitos dos cachorros perderem orelhas ou pés, mas nada que os impeça de continuar a atuar como caçadores em um lugar cheio de lavas e ameaçado pelo Shere Khan, o tigre malvado do filme do Mogli, que aqui em casa é representado pelo Gato Guerreiro, o tigre amigo do He Man, que vocês não fazem ideia de quem seja. A imaginação de vocês é gigante, invejável e todos os dias vocês se olham e falam: "vamos brincar de caçadores?", e começam a criar um mundo cheio de 'finge que'.

Aulas virtuais
Ainda em março, quando as aulas presenciais foram suspensas, a escola de vocês tentou implantar o estudo à distância. Não deu certo. Ninguém sabia como fazer, nem escola (que é construtivista) nem famílias. Eu me dei conta que vocês não sabiam usar o mouse, olha só. Nasceram na era do touch screen (diferente de mim e do papai, que nascemos na era da folha de papel almaço). Por fim todo mundo entrou de férias em abril e em maio tudo recomeçou, muito mais estruturado. Vocês aprenderam a usar o computador e a ver os amigos pela tela. Pedro, você, aos 7 anos, tem aulas virtuais de matemática, práticas de linguagem, ciências, música, inglês e muitas outras. Maria, aos 4 anos, ouve histórias, aprende a fazer dobraduras, pinturas, colagens e sons. Tudo da sala de jantar, onde de segunda a sexta estão os computadores e todos os livros e materiais que vão ser usados na semana. Papai e eu nos revezamos para ajudar e tem dado tudo certo (apesar de às vezes ficarmos meio confusos com tanta coisa ao mesmo tempo). Não é o ideal, mas é o que podemos fazer hoje. A escola tem se esforçado e nós também. Temos sorte de vocês serem inteligentes e interessados, de sempre participarem das atividades e de aprenderem mesmo quando não estão estudando.   

Leiturinha e a necessidade de rotina
Criança gosta e precisa de rotina e aqui em casa sempre fomos comprometidos com isso. Eu também adoro, não vou mentir. Mas ficar em casa o tempo todo cansa pouco - as crianças, claro. Nós, adultos, ficamos acabados. Todo mundo acorda um pouco mais tarde, não se movimenta muito durante o dia e não tem sono na hora de dormir. Vocês iam para a cama às 8 e meia da noite a agora vão às nove e meia. O jantar também ficou para mais tarde, o almoço do fim de semana nem se fala. Mas se tem uma coisa que tem que acontecer todo santo dia é a leiturinha da Maria. E acontece com ritual: coberta, almofadas, bichos de pelúcia e um gibi cuidadosamente escolhido. Vocês têm amado ler gibi. Maria, que ainda não lê, prefere Turma da Mônica. Pedro, leitor há mais tempo, gosta da Mônica mas adora também Tio Patinhas, Asterix e Obelix, Calvin, Snoopy e o que achar pela casa. À noite a escolha é sempre de um livro, que papai ou eu lemos para os dois antes de dormirem. É tão bonitinho ver vocês se arrumando na cama da Maria para ouvir a história, mesmo que seja dos Três Porquinhos (a favorita da Maria há uns anos já). 

Caetanear o que há de bom
Outra coisa legal que acabou acontecendo naturalmente e que marca as nossas semanas é que no sábado e no domingo sempre tem música em casa. Eu confesso que gosto do silêncio, mas papai e vocês são super musicais e amam ouvir alguma coisa na hora do almoço, do futebolzinho ou do quebra-cabeça na mesa de jantar. E essa alguma coisa é 95% das vezes Caetano Veloso. Até o Spotify já entendeu nossa obsessão predileção e nos leva automaticamente para as músicas do Caetaninho, mesmo que a gente tenha começado a ouvir um samba ou qualquer outra coisa. Passamos a cozinhar e almoçar em casa nos fins de semana e isso se mostrou mais agradável do que pensávamos. São dias sem pressa, sem compromissos, só de música e descanso. Às vezes vamos na chácara do vovô no meio da tarde, só nós quatro, para jogar futebol no campinho, tomar um ar, subir na árvore, balançar na rede. Temos um privilégio grande de ter para onde fugir quando cansamos de olhar para as mesmas paredes.

Quando tudo isso acabar - e a gente não sabe quando vai ser -, espero que vocês tenham boas memórias do tempo que passamos juntos. Nem todo dia é lindo, claro, e temos consciência que lá fora tem gente em situação bem difícil. De qualquer forma, é um grande desafio essa convivência intensa, mas fico feliz que temos tido bons momentos e estamos mais próximos do que nunca. Que honra poder passar a quarentena com vocês.

domingo, 3 de maio de 2020

7 anos

Querido filho Pedro,

Mais uma vez demorei para escrever seu relato de aniversário. Desta vez não posso culpar a falta de tempo ou o excesso de trabalho, mas mesmo com essa super desacelerada da vida os dias têm passado tão depressa. A gente se envolve nas nossas pequenas (?) atividades e quando vê já é hora do jantar, do banho, da cama. Mesmo que o banho e a cama tenham acontecido tão mais tarde do que estávamos acostumados. Tudo mudou em relação ao que estávamos acostumados.

Fico pensando quanta literatura, quantos relatos virão dessa época. O que vai ser daqui pra frente? Vai tudo mudar mesmo? Como é que a história vai tratar tudo isso? Estamos em plena pandemia, filho, uma doença chamada Covid-19, ou coronavírus, infectou muitas e muitas pessoas no mundo todo. Começou lá na China e rapidamente se espalhou para todos os outros países. A gente nunca tinha visto nada assim, a última doença que fez tantas vítimas e numa escala tão global foi a gripe espanhola, acho, lá por volta de 1918. Nem o Vô Zito, seu bisavô, tinha nascido ainda.

Eu disse esses dias no lanche da tarde que vocês contariam essa história para seus netos. Você fez umas contas pra saber como que tinha netos e ficou bravo, falando que não teria filhos e consequentemente netos. Bom, escolha sua e eu respeito, mas eu já tenho vocês e quero sim contar tudo isso que está acontecendo. Mesmo porque a gente passou até por uma pequena aventura, quando quase ficamos presos na Argentina, sem voo para voltar para casa. Dito tudo isso, o que quero registrar hoje (meio atrasada, mas é a vida) é a comemoração do seu aniversário de 7 anos e os marcos importantes que venho observando em você.

Esse foi o ano em que te vi mais animado para comemorar seu aniversário com seus amigos da escola. Sugeri não fazer nada, só um bolinho com os avós em casa, mas você insistiu muito em convidar os meninos e meninas da sua classe para brincar na chácara do vovô. Chegamos até a convidá-los. Mas daí veio o coronavírus e mudou todos os planos. E na semana de 25 de março todo mundo estava muito tenso com tudo isso, com medo de se contaminar, tentando entender qualé que era dessa quarentena. E a gente tinha voltado há pouco tempo de uma viagem internacional (chegamos na noite do dia 19), o que deixava tudo mais complicado ainda.

Mas sabe, Pedro, as coisas acabaram acontecendo de um jeito tão bonito e singelo. E você encarou tudo isso tão bem, com seu ar sereno (beirando o blasé). Foi muito legal, no fim das contas, comemorar seu aniversário assim. Fizemos um bolo grande, com recheio e cobertura de brigadeiro, fizemos brigadeiros também, que ficaram meio duros porque eu nunca sei o ponto certo. E convidamos todos os seus brinquedos de animais para a festa-lanche da tarde, os de plástico e os de pelúcia. Colocamos os chapeuzinhos neles que tínhamos feito durante a semana e a mesa da sala de jantar ficou linda, cheia de coisa enfeitada. De pessoas, eu, você, o papai e a Maria.

Durante o dia seus amigos da escola mandaram vídeos te dando parabéns, meus irmãos e meus tios fizeram chamadas de vídeo com você. Olha aí a tecnologia sendo mais útil do que nunca. Na hora do parabéns conectamos os tios e avós nos celulares e cantamos todos juntos. A gente ficou tão imerso com os preparativos a semana inteira, e passou o dia tão rodeado de amor - vindo do celular - que você se sentiu bem, feliz. Amado, porque realmente é. Fez 7 anos, meu amor.

Como sempre fiz (e sempre atrasada), vou listar alguns fatos sobre você para lembrarmos quando você for grande. Vamos lá?

- quer se cineasta e biólogo. Chegou nessas duas profissões depois de pensar muito e parece bem decidido. Sobre a biologia, ama estudar em seus livros sobre animais e natureza. Sobre o cinema, tem tido ideias incríveis e engraçadas sobre filmes que vai gravar, tipo umas misturas de Star Wars com Turma da Mônica.
- tem passado muito tempo brincando com brinquedos com sua irmã na sala (e nos quartos, que vocês gostam de espalhar coisas pela casa toda. Mas é quarentena e pode). Pelo que eu ouço, vocês fazem umas reproduções de filmes do Star Wars e colocam personagens de outros filmes juntos, tipo o Shere Kahn, o tigre vilão do Mogli, e a galera da Patrulha Canina.
- está alto e magrelo, um menino grande. Tivemos no pediatra duas vezes esse ano, uma em janeiro, para a consulta regular do ano, e outra no fim de abril, para tentar resolver uma tossinha seca que te acompanha há muitos meses. No começo do ano estava com 1,24 cm e 23,3 kg; na semana passada já estava com 1,25 cm e 23,9 kg. Excelente na curva!
- tem feito tudo sozinho, sem nenhuma ajuda nossa: toma banho, se veste, escova os dentes, arruma a cama, guarda sapatos e brinquedos, faz o prato no almoço e jantar.
- ajuda nas coisas da casa quando eu peço, mas não adora. Dá uma bufadinha, tenta escapar, mas ajuda. Cara, nem eu gosto. Mas tem que fazer, né? Eu geralmente peço para secar e guardar louça, colocar a mesa, tirar a mesa depois das refeições e levar o cesto de roupa suja na lavanderia.
- é muito, muito bom em jogos tipo Lince (de achar figuras no tabuleiro), quebra-cabeça, jogo da memória, jogo da velha. Eu jogo super sério com você, pra ganhar, e nem sempre ganho.
- ama ama AMA desenhar. Nesses dias de quarentena e de férias da escola, tem desenhado bastante. O tema favorito é aquela mistura de Turma da Mônica com Star Wars. Faz páginas e páginas no caderno e em sulfites. E também faz umas versões de bichos como super-heróis, umas invenções criativas assim. E sempre vem mostrar pra gente, super orgulhoso. Ah, não gosta de pintar. Desenha de lápis grafite em papel branco. Tem treinado fazer ângulos diferentes da mesma coisa (de um leão, por exemplo), e é realmente legal.
- lê bastante, todos os dias, mas só as coisas que gosta. Gibis da Mônica e livros do Tio Patinhas e do Asterix são os favoritos do momento. Gosta também do livro de recordes e dos livros de animais. Os livros da escola, que eu já mandei ler, não quer nem abrir. Mas né, você lê há bastante tempo, desde os 4 anos, e na sua classe é quem está mais avançado. Não me preocupo, mas bem que eu queria que lesse logo Clarice Lispector e o que mais a professora indicou.
- é tranquilo, calmo, não se estressa por muita coisa. Raramente chora ou fica triste. Passa o dia de boa em casa. Brinco que é a pessoa mais bem-adaptada à quarentena, porque ama ficar de boa em casa, lendo e desenhando. Pergunto se está com saudade da escola e dos amigos e a resposta é sempre 'não'.
- está super confiante e andando bem de bicicleta (embora a sua bike esteja meio pequena pra você já). Como estamos nesse momento de coronavírus, só podemos sair na rua de casa, que é sem saída, mas mesmo lá você tem ido super bem.
- gosta de ver TV, mas vocês não assistem todo dia. E não pedem, não reclamam, nem percebem que não assistiram. E estão aprendendo uma coisa louca que é ligar num canal infantil e ver o que está passando, aleatoriamente. Digo louca porque vocês cresceram na era do Netflix, escolhendo quando e o que ver, diferente de mim.
- tem muita criatividade e sabe ficar no ócio sem achar isso chato, o que tem sido incrível nessa quarentena. Isso te faz ficar tranquilo, tendo ideias boas e se divertindo com pouco. Não precisa de brinquedos caros ou eletrônicos para se virar bem.
- é a pessoa mais carinhosa e amorosa do mundo inteiro <3