sexta-feira, 31 de março de 2017

Vai que eu aceito

Dia desses estava voltando da escola com as crianças, na hora do almoço, e para sair do carro aquele fuzuê habitual: eles pulando nos bancos da frente e apertando todos os botões, e eu tentando juntar todo mundo, além de duas mochilas, dois pares de tênis, dois pares de meias e minha bolsa para levar lá pra cima. A vizinha de garagem estaciona ao lado, linda e formosa, dá um meio sorriso e pergunta: "precisa de ajuda?".

"Ai, que gentileza! Claro que preciso! Toma, pega a chave do meu apartamento, vai subindo lá e já começa a fritar os bifes. Lava a salada e põe o arroz pra esquentar no microondas. Muito obrigada, mesmo! Aliás, o que eu faria da vida sem você?!", respondi.

"Não, obrigada. Está tudo bem", respondi.

Sério, se você não quer mesmo ajudar, não ofereça, tá? Vai que eu aceito...


sexta-feira, 3 de março de 2017

Instinto? Sociedade?

Quando Maria Luísa nasceu, nossa casa já tinha trocentos uma quantidade considerável de brinquedos, em sua maioria dinossauros e carrinhos. Foi só quando ela completou um ano que as bonecas e panelinhas começaram a aparecer por aqui. 

Ah, nota importantíssima de esclarecimento: de todos os milhares brinquedos que eles têm, apenas 1% foi comprado por nós, pais. Os demais foram presentes de avós, tios, amigos etc, em aniversários e Natal. A gente não gosta de comprar brinquedo. Primeiro porque não precisa, eles já ganham muitos. Depois porque moramos em um apartamento, o que limita bem o espaço. E, por fim, sabemos que criança nenhuma precisa de tanta coisa assim. Pronto, posso continuar.

Todos os brinquedos deles ficam em dois baldes grandes na sala, misturados. Eles vão tirando de lá ao longo do dia, escolhendo o que querem e brincando. Sim, muitas vezes (tipo quase todos os dias) eles escolhem todos e viram os baldes no tapete, sem dó de mim. Enfim, não tem nada que separe o que é 'de menina' ou 'de menino'. A escolha é livre, é deles. Mas não tem jeito: Luísa vai direto na boneca, que chama carinhosamente de 'nenê'. Abraça, dá colo, dá mamadeira, balança, abraça de novo. Veja bem: eu nunca ensinei isso. Eu nunca incentivei-a a pegar a boneca. Mas ela pega. Ela escolhe. Ela quer. Até brinca vez ou outra com o carro de bombeiros, leva uns dinossauros pra banheira na hora do banho, mas é da nenê que ela gosta. 

Entendo que o Pedro não queira brincar com as bonecas. Ele não teve bonecas até os 3 anos, não fazia parte da vida dele. E a escola antiga era mestre em dividir as atividades por gênero (a nova não é, grazadeus). Eu tentava consertar esse pensamento ridículo ultrapassado em casa, mas ele nunca se interessou. Elas estão lá, jogadas pela sala, e ele não se comove. 

Mas e a Luísa, como se explica essa atração maluca pela boneca? E ela é uma mãezona: divide a bolacha com a nenê, quer levar na escola todos os dias, dorme abraçada (e olha que a boneca preferida dela é de um plástico duuuro), leva na cozinha pra almoçar, troca a fralda de cocô. Enfim, tudo o que eu faço com ela, ela repete com a boneca (acabei de me chamar de mãezona por tabela. De nada). Seria instinto materno? Ele existe? Que ano é hoje? Seria simplesmente social, reprodução do que vê em casa? Será magia, miragem, milagre, será mistério? Não sei, mas estou achando incrível poder acompanhar toda essa experiência.