quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Papo no cafezinho

Já falei que amo minhas conversas com as crianças no lanche da tarde, né?

Hard work

Dia desses a Maria Luísa anunciou, com aquela autoconfiança só dela, que quando crescer vai ser presidenta e policial. Desistiu da ideia de ser varredora de rua, dirigidora de retroescavadora e surfista. E me perguntou:

- E você, o que é, mamãe?

- Eu sou jornalista, filha.

- Só???

- E mãe também.

Ela riu, balançou a cabeça e disse:

- Ah, mãe não é trabalho, é coisa da vida!


Cadê o juiz?

Num bate-papo animado sobre amarelinha, Pedro estava nos explicando que no quadrado antes do 1 vinha o "INFERNO" e no final, depois do 10, vinha o "CÉU". Mas ficou em dúvida.

- O que é inferno?

- É uma crença das igrejas, filho. As pessoas religiosas acham que, quando alguém morre, vai para o céu se foi bom, que é um lugar bonito e divertido, e para o inferno se foi mau, fez coisas ruins na vida. Um lugar quente, cheio de fogo, desagradável.

- Hmmm, mas quem decide quem foi bom ou ruim, hein? Aliás, o que é bom ou ruim para um não é para outro. Qual é a lista do que é bom ou ruim?

Pois é. Eu também não sei, Pedroca.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Lembranças do Pedro

Hoje, durante o almoço, lembramos de duas frases engraçadas do Pedro, de uns anos atrás, e fiquei pensando se já anotei aqui. Se ainda não, aí estão (se já, sorry):

Carioquês?

Quando o primo do Juliano anunciou que mudaria com a família para o Rio de Janeiro, Pedro, que tinha uns 3 ou 4 anos, ficou intrigado e logo perguntou:

- Que língua eles falam lá?

Comida típica

Sempre que viajamos para algum lugar, tentamos experimentar as comidas locais (as não muito exóticas, claro) e as crianças nos acompanham. Quando Pedro tinha uns 3 ou 4 anos, visitamos um amigo do Juliano em Campinas para a tradicional ceia de Natal da turma dele. O prato era nhoque, coisa que eu não costumava dar para as crianças em casa (saudades de quando a vó Maria fazia quase toda semana... mas esse é outro assunto). Ele olhou bem para a travessa e perguntou bem alto:

- Aqui tem essa comida diferente porque viajamos e chegamos em outro país?  

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Eles e nós

Foram seis meses de contato direto, intenso, sem pausa para descanso. Desde março estamos só nós quatro, unidos por força da pandemia, em um esquema 24/7 com raríssimas e rapidíssimas exceções (consulta médica, caminhada matinal, fuga estratégica para o banheiro).

Apesar de estarmos sobrevivendo muito bem e digo até muito felizes, o contato ininterrupto e a presença de duas crianças em um apartamento por tanto tempo me fez esquecer de coisas básicas como o silêncio, a concentração em um trabalho por mais de uma hora, a não necessidade de levantar do escritório para providenciar almoço, jantar, lanchinho. 

Hoje, pela primeira vez, as crianças saíram de casa sem a gente. Fizeram as malinhas e, com uma animação explosiva, se prepararam para dormir na casa do tio José e da tia Mariana. A empolgação foi tanta que a Maria Luísa achou por bem usar a palavra "emocionada" para expressar o que sentia. Eu também fiquei emocionada.

Foram quase 180 dias sem a ajuda da escola ou das avós para dividir os cuidados com eles. A gente merecia essas 24 horas de descanso, livres de crianças. Passei a noite de ontem pensando o que fazer com tal liberdade (e concluí que preciso entregar uns jobs, fazer faxina e lavar roupa).

Quando entregamos eles, a mochila de roupas, a mala de brinquedos, os bichos de dormir e a arena beyblade para meu irmão, na frente do nosso prédio, todo mundo parecia feliz. Imagina só que legal deve ser para eles, que estão há todo esse tempo brincando com os mesmos brinquedos e das mesmas brincadeiras no mesmo lugar, mudar de ares, de pessoas, de comida, de vista da janela.

Subimos de volta para o apartamento, Juliano e eu, nos olhamos e concluímos: eles não dão tanto trabalho assim. Talvez seja mais estranho do que legal ficar sem aquelas duas coisinhas barulhentas e enérgicas, que só sabem falar dando pulinhos e que sobem pelos batentes das portas para se divertir. Olhei as bananas que sobraram na fruteira e pensei que hoje eu não precisaria cortá-las em rodinhas às quatro da tarde. Foi ruim. Escorreu uma lagriminha de saudade.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Mudando de fase

Sempre sofri horrores com as mudanças de fases das crianças. Sentia um luto pelo bebê que estava indo embora e sendo gradualmente substituído por uma criança cada vez mais esperta e independente. Falando assim soa estranho, e é estranho mesmo. Uma coisa que talvez só as mães consigam sentir.

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Mas isso passou. Mesmo porque meus filhos já têm 7 e 5 anos e poucos traços dos bebês que foram. Eles fazem quase tudo sozinhos e eu fui descobrindo que não há porque ficar triste com isso, muito pelo contrário. Quanto maiores são, menos trabalho temos no dia a dia.

Uma das grandes conquistas, para mim, foi quando passaram a tomar banho sozinhos. Um dia Pedro pediu e eu deixei, não lembro nem quando foi. Maria Luísa nem vi como foi. Provavelmente esqueci ela no banheiro com o chuveiro ligado e quando me dei conta a criança já estava enrolada na toalha, no corredor da sala, com o cabelo lavado. Uma tarefa a menos para a gente (e uma tarefa bem molhada, por sinal). 

Outro marco foi quando passaram a colocar cinto de segurança sozinhos no carro. Parece besteira, mas é uma obrigação que levava tempo e precisava de paciência. Quando pequenos porque choravam e não paravam quietos. Já maiores, colaboravam, mas ainda assim dependiam do adulto responsável para ajudar. Adulto esse que normalmente estava atrasado, atrapalhado e cheio de bolsas e mochilas penduradas. Hoje em dia cada uma abre sua porta, senta no seu lugar e coloca seu cinto. Sem drama, sem demora. O paraíso, minha gente.

Com o tempo, eles aprenderam também a preparar o próprio lanchinho da tarde. Claro que quando estou disponível gosto de cortar as frutinhas, preparar uma caneca de leite e um pãozinho para cada um. Mas se estou ocupada ou se estão com o pai, eles se viram sem o menor problema. A Maria, que gosta de banana cortada em rodinhas, prepara sozinha seu potinho. Eles também aprenderam a usar a sanduicheira para esquentar seu pães sem se queimar (na maior parte das vezes). Outra tarefa 'ticada' da lista.  

No dia a dia, pegam os brinquedos e livros que querem na hora que querem e se viram nas brincadeiras, que muitas vezes se espalham pela casa inteira. E como brincam juntos, não ficam o tempo todo nos chamando para ajudar com alguma coisa. Os desenhos também não dependem da gente: eles têm todos os lápis e estojos à mão e sabem onde moram os papéis. O contra dessa situação é que vão, por dia, umas 15 folhas de sulfite para pinturas e bilhetes aleatórios. A independência custa caro.

Mas quando a gente achou que podia descansar, finalmente, das tarefas mais chatas da maternidade (limpar criança no banheiro, por exemplo, que também já foi resolvido aqui em casa), eis que aparece... o fio dental! Por essa ninguém esperava. 

Um belo dia, após o almoço, chamei a Maria para conferir se a escovação dos dentes (responsabilidade também já delegada a eles, exceto a última escovada do dia) estava indo bem e avistei, entre aqueles pequenos e brancos dentinhos, um pedaço de carne do tamanho de um boi. Fiquei em pânico na mesma hora. Desde quando aquilo estava ali? Eu nunca tinha pensando na possibilidade de usar fio dental neles. De qual almoço era aquele fiapo de carne tão bem acomodado naquele cantinho? Coloquei a menina deitada na cama, com a cabeça virada para a varanda para que eu pudesse enxergar bem e fiz uma bela (e demorada) limpeza.

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Mas aí o precedente já estava aberto. A gente não podia mais fingir que não sabia que aquelas boquinhas acumulavam restos de comida. O mesmo com o Pedro, que já tem dente pra caramba. Não teve jeito, tivemos que incluir essa nova obrigação no dia. E que obrigação chata (saudades, cinto de segurança). Imagina enfiar sua mão dentro da boca de alguém (alguém que não para de mexer a língua, por sinal) e ficar tentando tirar pedaços de comida dos vãos dos dentes. Ah, a maternidade...

Pelo visto nosso papel por aqui não acabou. A dentista disse que só dá para confiar neles para passarem o fio dental sozinhos por volta dos 13 anos. Ou seja, tenho mais uns 2976 dias desse trabalho ingrato e melequento pela frente. Maldito dia que resolvi fiscalizar a escovação. 

Como eu disse, tenho achado legal ver os dois crescendo e precisando menos de mim. Mudar de fase pode ser bem legal, no fim das contas. Mas confesso que tem uma tarefa que ainda não consigo abrir mão, mesmo sabendo que eles já conseguiriam encarar sozinhos: segurar as mãozinhas deles antes de dormir. É daqueles momentos que às vezes dá preguiça (Pedro pode demorar uns bons minutos para pegar no sono), mas é tão nosso. Eles se sentem seguros e amados, e eu, mais ainda.