quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Eles e nós

Foram seis meses de contato direto, intenso, sem pausa para descanso. Desde março estamos só nós quatro, unidos por força da pandemia, em um esquema 24/7 com raríssimas e rapidíssimas exceções (consulta médica, caminhada matinal, fuga estratégica para o banheiro).

Apesar de estarmos sobrevivendo muito bem e digo até muito felizes, o contato ininterrupto e a presença de duas crianças em um apartamento por tanto tempo me fez esquecer de coisas básicas como o silêncio, a concentração em um trabalho por mais de uma hora, a não necessidade de levantar do escritório para providenciar almoço, jantar, lanchinho. 

Hoje, pela primeira vez, as crianças saíram de casa sem a gente. Fizeram as malinhas e, com uma animação explosiva, se prepararam para dormir na casa do tio José e da tia Mariana. A empolgação foi tanta que a Maria Luísa achou por bem usar a palavra "emocionada" para expressar o que sentia. Eu também fiquei emocionada.

Foram quase 180 dias sem a ajuda da escola ou das avós para dividir os cuidados com eles. A gente merecia essas 24 horas de descanso, livres de crianças. Passei a noite de ontem pensando o que fazer com tal liberdade (e concluí que preciso entregar uns jobs, fazer faxina e lavar roupa).

Quando entregamos eles, a mochila de roupas, a mala de brinquedos, os bichos de dormir e a arena beyblade para meu irmão, na frente do nosso prédio, todo mundo parecia feliz. Imagina só que legal deve ser para eles, que estão há todo esse tempo brincando com os mesmos brinquedos e das mesmas brincadeiras no mesmo lugar, mudar de ares, de pessoas, de comida, de vista da janela.

Subimos de volta para o apartamento, Juliano e eu, nos olhamos e concluímos: eles não dão tanto trabalho assim. Talvez seja mais estranho do que legal ficar sem aquelas duas coisinhas barulhentas e enérgicas, que só sabem falar dando pulinhos e que sobem pelos batentes das portas para se divertir. Olhei as bananas que sobraram na fruteira e pensei que hoje eu não precisaria cortá-las em rodinhas às quatro da tarde. Foi ruim. Escorreu uma lagriminha de saudade.

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