sábado, 26 de dezembro de 2020

Um resumo do semestre

Queridos filhos Pedro e Maria Luísa,

Venho fazer mais um registro de nossa vida atual para que vocês leiam no futuro, quando foram grandes. Estamos terminando 2020 e, crianças, que ano foi esse? Nunca na vida pensamos em passar por tanta coisa louca e inesperada, acho que nem ficção daria conta de inventar tanta história surreal. Mas sobrevivemos e vivemos bem na medida do possível. Vou dividir em tópicos para facilitar a escrita e o entendimento.

Acho importante lembrar, antes de tudo - não só aqui, mas todos os dias da vida - que somos ridiculamente privilegiados. Moramos em um apartamento ótimo, vocês estudam em uma escola incrível e não perdemos ninguém para o coronavírus. Enfim, não fomos diretamente afetados pela epidemia como tanta gente do nosso país desigual, onde pessoas perderam o emprego, a renda, os familiares, a escola. Então, antes de qualquer reclamação ou drama classe-média-sofre, é preciso fazer uma pausa para lembrarmos do lugar que estamos falando, da situação que nós estamos e da realidade do Brasil.  

Pandemia infinita

Faz quase um ano que estamos em pandemia mundial. No fim de março e começo de abril o Brasil se alarmou e tudo virou de ponta cabeça. Não só o Brasil, mas o mundo todo. Víamos o que se passava na Europa e outros países já sabendo que passaríamos o mesmo por aqui, com aquele delay que estamos acostumados. Quando tudo se acalmou por lá e o número de infectados e mortos por covid-19 diminuiu, sabíamos que por aqui também diminuiria, em algum momento. Apesar da ineficácia do governo, mas esse já é outro assunto. 

Pois bem, quando por aqui as coisas começaram a se acalmar e nossa vida foi voltando ao que era antes - restaurante, casa de familiares, escola presencial - deu-se a segunda onda na Europa e a certeza que ela viria para cá também. Agora, em dezembro, o número de pessoas infectadas no Brasil saltou e as medidas de prevenção voltaram a ser discutidas. Mas naquele esquema, prefeitura x estado x país. Um contradizendo o outro. E, depois de tanto tempo em casa, se lambuzando de álcool gel e usando máscara, ninguém mais quer fazer nada disso. Cansou, já deu. Ninguém mais se protege e os números sobem. 

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Escola presencial

Vocês voltaram presencialmente para a escola na última semana de outubro e ficaram até o fim de novembro. Nos primeiros dias de dezembro viajamos para Paraty, no RJ, e depois vocês não foram mais à aula. Foi um momento curto, mas importante para vocês, de reencontrar os amigos e os professores. Que falta faz o convívio social. Achei muito bacana vocês voltando para casa famintos e cansados e sujos e cheios de histórias para contar. Como vai ser o próximo ano? Ninguém sabe ainda, mas acredito que terá máscara, álcool gel, distanciamento e toda a preocupação de antes. Pelo menos até a vacina chegar, o que não tem data ainda (no Brasil; em alguns outros países do mundo a vacinação já começou). Isso nas escolas particulares, essas empresas que precisam lidar com clientes tal qual uma loja. Já nas escolas públicas a história é outra, bem diferente e menos promissora. 

Paraty

Sobre a viagem em plena pandemia, acho que fomos um pouco irresponsáveis sim, mas fizemos. Fomos de carro (o que foi bem tranquilo e levou pouco mais de cinco horas). Vocês se distraíram o tempo todo com livros de pintura e atividades e gibis (e eu usei meu método favorito, que é dormir o maior tempo possível). Nos programamos para estar na cidade nos dias de semana e contratamos um passeio de barco só para nós quatro no fim de semana. Tomamos cuidados, mas não me orgulho de ter ido viajar nessa época. De qualquer forma, fomos, e foi bem gostoso. A cidade é linda demais, com as casas coloniais e centro histórico preservado. A natureza ao redor também é deslumbrante, numa mistura infalível de praia e montanha. Não tem como dar ruim. 

Vocês se divertiram com tudo: os caranguejos nas calçadas, o mar, a areia, as poças de água nos dias de chuva, a piscina do hotel, as ruas de pedras, os bichos que vimos nos passeios, o barco... Vocês se encantam com cada coisinha e eu me encanto junto. Nós formamos a melhor equipe de viagem de todas e até um cartão de aniversário eu ganhei no dia 5 de dezembro, que a Maria guardou escondido na mala. Foi uma aventura legal para encerrarmos o ano.

A morte

Mas, como nem tudo é feito de sol e diversão, passamos por uma situação também inesperada e muito triste, que foi o falecimento da minha tia Elisa. Ela morreu de câncer no dia 6 de dezembro, um dia depois do meu aniversário, quando estávamos na estrada voltando para casa. Vocês ficaram sabendo de tudo, de toda a caminhada desde o diagnóstico da doença, em setembro, até a despedida dela. Fomos visitá-las algumas vezes e até ajudar quando ela já não estava bem. 

Foi o primeiro contato de vocês com a morte, assim tão perto. Nunca tínhamos perdido alguém próximo depois que vocês nasceram, eu acho. E vocês dois encararam muito bem. Fizeram perguntas, viram minha dor, me consolaram, aprenderam como as pessoas ficam quando perdem alguém e que a vida é assim mesmo, finita. Achei importante que nada fosse segredo ou meia verdade. Uma das coisas mais importantes no nosso relacionamento, acredito eu, é a honestidade. 

Festas de fim de ano

Passamos o Natal com a família - dia 24 com meus familiares, dia 25 com os do papai. É assim que sempre fazemos, desde que vocês chegaram. Neste ano não tivemos amigo-secreto (o que achei ótimo e bem econômico) e nem muita gente (o que também achei ótimo). O clima não era dos mais festivos, pela perda tão recente da tia Elisa e pela pandemia, mas foi importante estarmos juntos, nos dois dias. 

Vocês, crianças, têm uma função importante nesses dias, que é alegrar as pessoas ao redor mesmo sem fazer nada pra isso. A simples presença de vocês andando de um lugar para o outro, mexendo nas coisas, falando com suas vozes infantis... casa com criança fica renovada, mais alegre, sabe? Eu sei que vocês não sabem, mas é bem isso que acontece. Quando a gente não vai a algum lugar, não é a nossa ausência que é lamentada, mas a de vocês. Eu não ligo muito para Natal, mas fico feliz que vocês possam alegrar o dia de seus avós e bisavós.

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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

5 anos

Maria Luísa fez 5 anos no dia 13 de agosto e eu, como sempre, esqueci de vir fazer minhas tradicionais (e atrasadas) anotações sobre ela e essa idade tão legal e engraçada. Muita coisa aconteceu nesse ano inusitado - ou pouca coisa, não sei ao certo - mas pudemos ver um crescimento gigantesco dessa menina maluquinha. 

Festa de aniversário

Como a pandemia ainda estava rolando, decidimos fazer aquele esquema de bolo em casa, só nós quatro mesmo. E com aquela encenação toda de surpresa, que quase nunca dá certo. Mas foi legal! Fizemos o bolo que ela queria, de chocolate com recheio de doce de leite e cobertura de brigadeiro com M&Ms. Estou quase que uma especialista na receita já. No fim da noite, as duas avós passaram por aqui e entregaram presentes para as crianças pelo portão do prédio.

O tema desse ano era criativo, como a própria aniversariante: caça à bailarina. Apesar das piadas do Juliano e do Pedro, não envolvia espingarda nem nada assim. Era, na prática, um esconde-esconde em que ela, vestida de bailarina, se esconderia em um canto da casa e os convidados sairiam para procurá-la. O primeiro a achar ganharia um chocolate. Desafio aceito: preparei uma caixinha com Bis e Batom, que ela ama, achei o collant do balé (que já está apertado, mas tudo bem) e fizemos a brincadeira que ela inventou. 

Teve decoração também! Fizemos alguns desenhos durante a semana e colamos na parede da sala de jantar, junto com bexigas de cores variadas. Na mesa, posicionamos as duas bonecas bailarinas dela, a rosa e a roxa, ao lado do bolo. O Pedro até usou gravata borboleta para a festa hhahahah! Não foi uma festa tradicional, mas foi bem divertida.

Crescimento

Como de praxe, vou fazer algumas anotações sobre o desenvolvimento da Mariazinha para que a gente possa ler no futuro e relembrar desses momentos.

- como não vai ao pediatra há tempos, não sei ao certo quanto está medindo e pesando. A anotação da última consulta, em janeiro, diz 1,06 cm e 17,7 kg. Mas com base na quantidade de bolo que a gente fez na quarentena e nas calças todas curtas na gaveta dela, imagino que já tenha passado disso.

- aprendeu a ler e a escrever em plena quarentena. Eu não aguento de orgulho dessas coisas! Pouco antes de fazer 5 anos, estava muito, muito curiosa sobre letras, palavras e rimas. Então nós fizemos jogos, brincadeiras e cartas uns para os outros, até que ela se sentiu confiante para começar a ler e escrever sozinha. Foi muito legal! A escrita ainda está se desenvolvendo, claro, mas ela consegue se expressar. Mistura C com S e usa QU no lugar do C. Ainda assim consegue escrever cartões para a família toda. 

- com essa nova habilidade, passa bastante tempo lendo gibis da Turma da Mônica no sofá ou na cama, com uma girafa debaixo do braço e uma cobertinha. Apesar de já conseguir ler e se divertir sozinha, nos pede TODO DIA para fazermos uma 'leiturinha' de um gibi para ela. 

- aprendeu a andar de bicicleta sem rodinhas, como eu também já havia contado em outro post. Foi bem rápido, precisou de poucos dias para se sentir segura e ir. Agora corre pra caramba e não tem medo de nada. E caiu pouquíssimas vezes.

- gosta de jogar Beyblade com o Pedro e ganhou uma de presente no Dia das Crianças.

- faz quase tudo sozinha: vai ao banheiro, escova os dentes, toma banho, se veste, penteia o cabelo, corta banana de rodinhas no lanche da tarde, arruma a própria cama, guardar brinquedos, etc etc.

- foi super bem no período de aulas online. Quis fazer todas as atividades e se adaptou bem aos encontros com os professores e os (poucos) amigos que entravam no horário. Não se intimidou com a câmera e nem teve preguiça de assistir todos os vídeos. Dentro do possível, conseguiu aproveitar bem o que foi oferecido. E sempre muito animada e feliz.

- tem uma energia surreal. Está sempre animada, cantando, pulando, chamando a gente pra jogar um futebolzinho no corredor. Aliás, tem jogado futebol super bem!

- está em dúvida se quer mesmo ser presidente do Brasil quando crescer. Considera também ser varredora de rua, dirigidora de retroescavadeira, surfista e jornalista.

- perdeu muita roupa e sapato no último ano. Quando vimos, tudo estava curto e justo. 

- gosta de jogos de tabuleiro (Lince, Tapa Certo, Kariba, Dominó), mas ainda não assimila bem a derrota. Chora, joga tudo pra cima e diz que não quer mais brincar.

- fica chateadíssima se leva alguma bronca. Mas muito. Chora quietinha, sentida, até a gente ir e pegar no colo. Mas tem aprendido a reconhecer quando erra e pedir desculpas. No geral, ela e o Pedro são muito tranquilos e gente boa, não temos trabalho com eles. 

- tem ideias muito criativas e sempre está bolando planos para os ataques de ninja que ela e o Pedro executam em casa. Geralmente eles planejam roubar tomatinhos da mesa antes do almoço ou então ficar passando perto da gente sem que sejam notados. cof cof

- deu uma cansada de Patrulha Canina e está envolvida em uns desenhos de crianças maiores, tipo Jovens Titãs. Ela e o Pedro têm gostado de assistir as mesmas coisas, o que facilita a hora da TV aqui em casa: Mr. Magoo, Art Atak, Irmãos Kratts.

- fica super de boa sem televisão por dias. Ela e o Pedro criaram, no início da pandemia, uma brincadeira chamada Caçadores, em que todos os brinquedos desempenham um papel numa missão e sei lá mais do que (já falei sobre isso em outro post). Agora enjoaram um pouco, mas ficaram entretidos por meses com isso. 

- não faz drama para dormir. Se está com sono, põe pijama e se enfia debaixo das cobertas. Bem resolvida.

- está sempre atenta ao que acontece ao redor, tem uma desenvoltura muito grande e é muito carismática. É esperta e se vira bem sem precisar pedir muita ajuda.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Autoestima elevada? Temos!

Maria Luísa escreveu um livro essa semana. Não é o primeiro, mas um dos mais elaborados. Se chama "O Indiana Jones aventureiro" e tem vários desenhos dele em situações perigosas, de muita aventura. A obra tem capa e várias páginas, coladas delicadamente com fita crepe. Edição limitada.

Eu me encantei com a fofura da grafia dele, "O INDIANA DIONES AVENTUREIRO", e postei no stories do Instagram. Foi uma chuva de likes, como diz o Juliano. Várias pessoas interagiram e tentaram adivinhar o que estava escrito. 

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No jantar, comentei com todo mundo aqui em casa que havia postado e que o livro tinha ficado bem legal. A autora, na mesma hora, levantou da cadeira, deu um sorrisinho e disse: "Tem páginas de ponta cabeça? Sim. Mas ficou bom mesmo assim? Sim também!". 

Já pensou se todas as mulheres do mundo tivessem essa autoestima, gente? Não ia sobrar patriarcado pra contar história. Nem a do Indiana Jones!


Sobre apego e aprendizados

Quando o Pedro era pequeno, comprei um estojo vermelho grande com duas divisórias para guardarmos lápis de cor e giz de cera. Acabou sendo uma excelente compra, porque ele ama desenhar desde sempre. Na quarentena então, é rotina: ele e a Maria Luísa passam o dia inteiro pegando sulfite no escritório para as novas produções artísticas deles.

Daí que na semana passada precisamos nos despedir do tal do estojo vermelho, que estava bem velhinho e rasgado, derrubando giz pela casa inteira. Peguei um estojo do mesmo tamanho que seria usado pelo Pedro na escola, esse ano, e transferi os lápis para lá. Simples e fácil, não? Não, claro, porque Pedro viu o estojo vermelho no lixo e desandou a chorar.

Eu procuro entender esses momentos deles, por mais que eu discorde e ache um absurdo. Num primeiro momento disse que o estojo estava velho e que não estava mais desempenhando a sua principal função, por isso trocamos. Ele continuou a chorar, por dias. Sim, DIAS! Pedro passou uns três dias lembrando do estojo e chorando.

Pedro sofre pelas coisas. Ele odeia doar roupas que não servem mais (doa, mas chora antes e se despede de cada peça) ou jogar fora desenhos antigos. Se apega a tudo que já foi importante para ele e, se pudesse, guardaria tudo para sempre. Mas a vida não é assim, né. A gente mora em um apartamento e ninguém precisa manter roupa apertada na gaveta. As coisas têm que circular e sempre tem gente precisando do que a gente não usa mais.

Em um determinado momento, já no terceiro dia, eu disse a ele que entendia a tristeza dele, que sabia como ele adorava aquele estojo, que foi seu companheiro de desenhos por alguns anos. Mas que aquilo era um objeto, uma coisa. Não poderíamos sofrer como se estivéssemos falando de uma pessoa. É mais legal guardar (ou expressar) nosso amor por pessoas, não por coisas.

"Você pensa isso, mas eu não! Nós somos diferentes! É crime agora ser diferente?", ele gritou meio choroso, sentado na cadeira da sala de jantar. Não, não é. Me agachei ao lado dele e me dei uns minutos para refletir. "Eu deveria ter dito isso para minha mãe quando tinha a idade dele", pensei. Até esqueci do estojo. "Não é, filho, você tem razão. É maravilhoso sermos diferentes, e eu preciso entender isso o quanto antes", disse.

Não tenho apego nenhum a estojo ou calça jeans de dez anos atrás. Não uso mais? Vai para a doação, junto com brinquedos, utensílios domésticos e sapatos. Mas o Pedro não é a Juliana, o Pedro é a minha mãe o Pedro, e ele realmente sente essa ligação pelas coisas dele e se aflige quando temos que nos desfazer de algo. Talvez porque aquilo signifique mudar de fase. Aquele ato de abrir mão de alguma coisa querida quer dizer que ele cresceu, que não cabe mais ali, que não é mais um bebê ou uma criança pequena. E crescer dói mesmo, assusta. 

Não tem um dia que eu não aprenda algo com as crianças, por bem ou por mal. Mesmo nos dias calmos, quase tediosos. A visão de mundo deles, tão fresca e limpa de normas sociais, me abre a cabeça para um enxergar a ingenuidade e a simplicidade que a gente vai perdendo com a vida adulta. Não me irritei de ter que acalmar um menino que chorava pelo estojo rasgado, pelo contrário, achei que eu tinha um papel ali de ensinar. Mas, como quase sempre acontece, acabei aprendendo. E que lindo ver meu filho se posicionando!

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Papo no cafezinho

Já falei que amo minhas conversas com as crianças no lanche da tarde, né?

Hard work

Dia desses a Maria Luísa anunciou, com aquela autoconfiança só dela, que quando crescer vai ser presidenta e policial. Desistiu da ideia de ser varredora de rua, dirigidora de retroescavadora e surfista. E me perguntou:

- E você, o que é, mamãe?

- Eu sou jornalista, filha.

- Só???

- E mãe também.

Ela riu, balançou a cabeça e disse:

- Ah, mãe não é trabalho, é coisa da vida!


Cadê o juiz?

Num bate-papo animado sobre amarelinha, Pedro estava nos explicando que no quadrado antes do 1 vinha o "INFERNO" e no final, depois do 10, vinha o "CÉU". Mas ficou em dúvida.

- O que é inferno?

- É uma crença das igrejas, filho. As pessoas religiosas acham que, quando alguém morre, vai para o céu se foi bom, que é um lugar bonito e divertido, e para o inferno se foi mau, fez coisas ruins na vida. Um lugar quente, cheio de fogo, desagradável.

- Hmmm, mas quem decide quem foi bom ou ruim, hein? Aliás, o que é bom ou ruim para um não é para outro. Qual é a lista do que é bom ou ruim?

Pois é. Eu também não sei, Pedroca.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Lembranças do Pedro

Hoje, durante o almoço, lembramos de duas frases engraçadas do Pedro, de uns anos atrás, e fiquei pensando se já anotei aqui. Se ainda não, aí estão (se já, sorry):

Carioquês?

Quando o primo do Juliano anunciou que mudaria com a família para o Rio de Janeiro, Pedro, que tinha uns 3 ou 4 anos, ficou intrigado e logo perguntou:

- Que língua eles falam lá?

Comida típica

Sempre que viajamos para algum lugar, tentamos experimentar as comidas locais (as não muito exóticas, claro) e as crianças nos acompanham. Quando Pedro tinha uns 3 ou 4 anos, visitamos um amigo do Juliano em Campinas para a tradicional ceia de Natal da turma dele. O prato era nhoque, coisa que eu não costumava dar para as crianças em casa (saudades de quando a vó Maria fazia quase toda semana... mas esse é outro assunto). Ele olhou bem para a travessa e perguntou bem alto:

- Aqui tem essa comida diferente porque viajamos e chegamos em outro país?  

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Eles e nós

Foram seis meses de contato direto, intenso, sem pausa para descanso. Desde março estamos só nós quatro, unidos por força da pandemia, em um esquema 24/7 com raríssimas e rapidíssimas exceções (consulta médica, caminhada matinal, fuga estratégica para o banheiro).

Apesar de estarmos sobrevivendo muito bem e digo até muito felizes, o contato ininterrupto e a presença de duas crianças em um apartamento por tanto tempo me fez esquecer de coisas básicas como o silêncio, a concentração em um trabalho por mais de uma hora, a não necessidade de levantar do escritório para providenciar almoço, jantar, lanchinho. 

Hoje, pela primeira vez, as crianças saíram de casa sem a gente. Fizeram as malinhas e, com uma animação explosiva, se prepararam para dormir na casa do tio José e da tia Mariana. A empolgação foi tanta que a Maria Luísa achou por bem usar a palavra "emocionada" para expressar o que sentia. Eu também fiquei emocionada.

Foram quase 180 dias sem a ajuda da escola ou das avós para dividir os cuidados com eles. A gente merecia essas 24 horas de descanso, livres de crianças. Passei a noite de ontem pensando o que fazer com tal liberdade (e concluí que preciso entregar uns jobs, fazer faxina e lavar roupa).

Quando entregamos eles, a mochila de roupas, a mala de brinquedos, os bichos de dormir e a arena beyblade para meu irmão, na frente do nosso prédio, todo mundo parecia feliz. Imagina só que legal deve ser para eles, que estão há todo esse tempo brincando com os mesmos brinquedos e das mesmas brincadeiras no mesmo lugar, mudar de ares, de pessoas, de comida, de vista da janela.

Subimos de volta para o apartamento, Juliano e eu, nos olhamos e concluímos: eles não dão tanto trabalho assim. Talvez seja mais estranho do que legal ficar sem aquelas duas coisinhas barulhentas e enérgicas, que só sabem falar dando pulinhos e que sobem pelos batentes das portas para se divertir. Olhei as bananas que sobraram na fruteira e pensei que hoje eu não precisaria cortá-las em rodinhas às quatro da tarde. Foi ruim. Escorreu uma lagriminha de saudade.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Mudando de fase

Sempre sofri horrores com as mudanças de fases das crianças. Sentia um luto pelo bebê que estava indo embora e sendo gradualmente substituído por uma criança cada vez mais esperta e independente. Falando assim soa estranho, e é estranho mesmo. Uma coisa que talvez só as mães consigam sentir.

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Mas isso passou. Mesmo porque meus filhos já têm 7 e 5 anos e poucos traços dos bebês que foram. Eles fazem quase tudo sozinhos e eu fui descobrindo que não há porque ficar triste com isso, muito pelo contrário. Quanto maiores são, menos trabalho temos no dia a dia.

Uma das grandes conquistas, para mim, foi quando passaram a tomar banho sozinhos. Um dia Pedro pediu e eu deixei, não lembro nem quando foi. Maria Luísa nem vi como foi. Provavelmente esqueci ela no banheiro com o chuveiro ligado e quando me dei conta a criança já estava enrolada na toalha, no corredor da sala, com o cabelo lavado. Uma tarefa a menos para a gente (e uma tarefa bem molhada, por sinal). 

Outro marco foi quando passaram a colocar cinto de segurança sozinhos no carro. Parece besteira, mas é uma obrigação que levava tempo e precisava de paciência. Quando pequenos porque choravam e não paravam quietos. Já maiores, colaboravam, mas ainda assim dependiam do adulto responsável para ajudar. Adulto esse que normalmente estava atrasado, atrapalhado e cheio de bolsas e mochilas penduradas. Hoje em dia cada uma abre sua porta, senta no seu lugar e coloca seu cinto. Sem drama, sem demora. O paraíso, minha gente.

Com o tempo, eles aprenderam também a preparar o próprio lanchinho da tarde. Claro que quando estou disponível gosto de cortar as frutinhas, preparar uma caneca de leite e um pãozinho para cada um. Mas se estou ocupada ou se estão com o pai, eles se viram sem o menor problema. A Maria, que gosta de banana cortada em rodinhas, prepara sozinha seu potinho. Eles também aprenderam a usar a sanduicheira para esquentar seu pães sem se queimar (na maior parte das vezes). Outra tarefa 'ticada' da lista.  

No dia a dia, pegam os brinquedos e livros que querem na hora que querem e se viram nas brincadeiras, que muitas vezes se espalham pela casa inteira. E como brincam juntos, não ficam o tempo todo nos chamando para ajudar com alguma coisa. Os desenhos também não dependem da gente: eles têm todos os lápis e estojos à mão e sabem onde moram os papéis. O contra dessa situação é que vão, por dia, umas 15 folhas de sulfite para pinturas e bilhetes aleatórios. A independência custa caro.

Mas quando a gente achou que podia descansar, finalmente, das tarefas mais chatas da maternidade (limpar criança no banheiro, por exemplo, que também já foi resolvido aqui em casa), eis que aparece... o fio dental! Por essa ninguém esperava. 

Um belo dia, após o almoço, chamei a Maria para conferir se a escovação dos dentes (responsabilidade também já delegada a eles, exceto a última escovada do dia) estava indo bem e avistei, entre aqueles pequenos e brancos dentinhos, um pedaço de carne do tamanho de um boi. Fiquei em pânico na mesma hora. Desde quando aquilo estava ali? Eu nunca tinha pensando na possibilidade de usar fio dental neles. De qual almoço era aquele fiapo de carne tão bem acomodado naquele cantinho? Coloquei a menina deitada na cama, com a cabeça virada para a varanda para que eu pudesse enxergar bem e fiz uma bela (e demorada) limpeza.

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Mas aí o precedente já estava aberto. A gente não podia mais fingir que não sabia que aquelas boquinhas acumulavam restos de comida. O mesmo com o Pedro, que já tem dente pra caramba. Não teve jeito, tivemos que incluir essa nova obrigação no dia. E que obrigação chata (saudades, cinto de segurança). Imagina enfiar sua mão dentro da boca de alguém (alguém que não para de mexer a língua, por sinal) e ficar tentando tirar pedaços de comida dos vãos dos dentes. Ah, a maternidade...

Pelo visto nosso papel por aqui não acabou. A dentista disse que só dá para confiar neles para passarem o fio dental sozinhos por volta dos 13 anos. Ou seja, tenho mais uns 2976 dias desse trabalho ingrato e melequento pela frente. Maldito dia que resolvi fiscalizar a escovação. 

Como eu disse, tenho achado legal ver os dois crescendo e precisando menos de mim. Mudar de fase pode ser bem legal, no fim das contas. Mas confesso que tem uma tarefa que ainda não consigo abrir mão, mesmo sabendo que eles já conseguiriam encarar sozinhos: segurar as mãozinhas deles antes de dormir. É daqueles momentos que às vezes dá preguiça (Pedro pode demorar uns bons minutos para pegar no sono), mas é tão nosso. Eles se sentem seguros e amados, e eu, mais ainda.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Escritora

Maria Luísa já aprendeu a escrever algumas palavras e tem usado essa nova habilidade para se comunicar. Nesta semana, ela e o Pedro brigaram por algum motivo bobo e ela se sentiu meio mal de ter chateado o irmão. Correu pegar uma folha de sulfite, escreveu "EU SOU PECIMA" e entregou a ele. Pedro ficou tão comovido com a mensagem que amassou a folha com força e gritou: você não é péssima, Maria! E eles se abraçaram.

Foi lindo, gente.

Claro que voltaram a brigar de novo depois de uns minutos, mas foi lindo pelo tempo que durou.

domingo, 2 de agosto de 2020

Como nossos pais

A gente sempre se gabou de apresentar música boa aos nossos filhos. O Juliano, principalmente. E música boa é uma coisa ABSOLUTAMENTE relativa. Boa para ele. Para nós, no máximo. Mas o ponto que quero chegar é esse: ouvimos, na nossa casa, Caetano Veloso (em modo repeat enlouquecido), Milton Nascimento, Gilberto Gil, Gal Costa, Chico Buarque, Belchior, Novos Baianos, Beatles, Rolling Stones, Etta James, Louis Armstrong e muitas ouras coisas... antigas. Aos dois anos de idade, Pedro cantava de cor várias músicas do Dorival Caymmi. E nós dois felizes da vida, com cara de trabalho concluído com sucesso.

Nunca nos passou pela cabeça que isso poderia ser um problema, em vez de um trunfo. Tipo colocar essas pobres crianças em situações não tão boas assim. Não digo ruins, mas estranhas, pelos menos. Foi só na semana passada que nos demos conta disso. No encontro online da escola do Pedro, um amigo perguntou se poderia dançar no fim da aula, pela câmera mesmo. A professora concordou e meu filho se ofereceu para colocar a música. Saiu correndo para a cozinha, pegou meu celular, ligou o Spotify e digitou na busca: Chet Baker. Sim, essa criança colocou um jazz para os amigos ouvirem.

Eu não vi as caras das pessoas no computador, mas imagino que não devem ter entendido nada. O menino que queria dançar gritou: "que música é essa? Alguém coloca uma MÚSICA para eu dançar?". A professora riu e ligou um Justin Timberlake. Ou Pharrel Willians. Ou um terceiro que nem o nome eu sei ainda. Todo mundo dançou e foi o Pedro que ficou com uma cara de "que música é essa?". Mas ele gostou, achou divertida. Nem precisou nos contar o que tinha acontecido. Eu parei de arrumar as camas na mesma hora para assistir todo o show. 

Ontem olhou para o Juliano e perguntou: "por que a gente só ouve música antiga? Por que eu não conheço nenhuma música nova?". Foi engraçado e triste ao mesmo tempo. A gente caiu na real, sete anos depois. Mas a resposta do Juliano foi curiosa e sincera, acabei concordando. "Eu sou seu pai, não é meu papel te apresentar coisas novas. Isso você aprende com amigos, na escola, na rua". A gente é a geração anterior, a gente é velho. Viramos nossos pais. Esse dia ia chegar e ele chegou. Agora, são nossos filhos que trazem as coisas novas pra casa, não a gente.

Isso me fez pensar seriamente no isolamento social e em como as crianças saem perdendo com essa situação. Não só porque não aprenderam direito matemática, ciências ou práticas de leitura, mas porque não convivem com outras pessoas, com outras crianças, de outras idades e outros backgrounds. Eles estão no ápice da bolha. O mundo deles é a casa. Pensei em todas as crianças que estudam em homeschooling mesmo fora da pandemia, em como eles ficam deslocados na realidade. Igual no filme do Capitão Fantástico. 

O Capitão Fantástico e as esquisitices que só o isolamento permite. 
Spoiler: até ele resolve matricular as crianças na escola no fim do filme.

Lembrei também do ano passado, quando nós dois estávamos trabalhando fora o dia todo e as crianças tinham que ficar na escola em período integral. Apesar de todos os problemas que vejo nisso, e não são poucos, sinto que tem uma parte positiva muito importante, que é a convivência com o mundo. Foi quando o Pedro pediu o álbum de figurinhas do Fortnight, me ensinou os nomes das Beyblades, aprendeu uma música do Michael Jackson e tantas outras coisas que nem lembro mais. Ainda mais ele, que é o primeiro filho e neto em duas famílias sem crianças. Não tem um único primo mais velho para ensinar besteira. Como eu fui. O mundo dele, em casa, é feito de adultos e de uma irmã menor. Que falta faz a escola.

Até coloquei Dua Lipa no Spotify, fingindo que eu sou cool e que sou a opção mais jovem da casa. Mas não rolou. Eu mesma não conhecia nenhuma música e ele pediu logo para voltar para o Caetano. Conviver é preciso, com o maior número de pessoas, de preferência de realidades mais diversas possíveis. A gente se forma assim, no contato com o outro, no mix de referências que vamos recebendo ao longo da vida. Nem todas são boas, e não me refiro só a Ludmilla ou Anitta, mas é como tem que ser se queremos que eles cresçam.

Maria cheia de novidades

Quarentena bombando por aqui ainda (na nossa casa, pelo menos; no resto das casas nem tanto) e Maria Luísa está nos surpreendendo com várias novidades.

A primeira delas é que aprendeu a ler e escrever! Sim, sim, minha gente, essa menininha esperta está completamente envolvida com as letras. Como estamos sem aulas desde março, todas as atividades estão acontecendo em casa, por isso podemos acompanhar de perto o desenvolvimento deles. Mas acho que isso é indiferente nesse caso. Ela foi mostrando interesse pelos livros e pelos gibis. 

Todo dia nos pede uma 'leiturinha', que é um gibi da Turma da Mônica escolhido por ela, em um lugar decidido por ela também, junto com uma cobertinha (apesar de estar fazendo 29°C em pleno inverno) e uns bichos de pelúcia. O fato é que a gente lê para eles todos os dias, mais de uma vez por dia. Além do gibi, tem o livro sagrado da noite (nada a ver com bíblia, não me entendam mal). E ela tem apreciado muito esses momentos.

Daí foi mostrando interesse em juntar as letras, em fazer jogos de palavras ("vamos falar palavras que começam com F") na hora do lanche da tarde, enfim, em saber como é que as coisas são escritas. E aconteceu super rápido, ela começou a nos perguntar, a testar algumas coisas no papel e está indo muito bem. Começou a soletrar palavras também, exatamente como o Pedro fazia na idade dela. Engraçado, porque eu acho soletrar uma coisa bem difícil. 

E a outra novidade é que Maria aprendeu também a andar de bicicleta sem rodinha! Ela não queria tirar a rodinha de jeito nenhum, então não insistimos. Mas sempre optava pelo patinete, que ela domina desde que era uma mini pessoa e anda muito, muito rápido. A bicicleta, que ela ganhou no aniversário do ano passado, a deixava meio lenta, desengonçada. Mas aí um dia, do nada, resolveu dar uma voltinha na do Pedro. Juliano ajudou (eu não sou boa nisso) e o Pedro ajudou muito também. Ele ficou muito feliz com o papel de irmão-mais-velho-professor-de-coisas-legais.

Ela adorou a emoção de usar a bicicleta do irmão e, de um dia para o outro, tomou coragem e foi. Que coisa linda assistir isso! Maria é super corajosa, esperta, tem uma desenvoltura física muito grande. Aprendeu inclusive a cair bem, sem se machucar tanto. Daí hoje fomos até uma rua sem saída perto da nossa casa, que é plana e vazia, e tiramos a rodinha da bicicleta dela. Foi demais! Pedro ajudou de novo e eles se divertiram bastante. 

É isso! Estamos em casa, provavelmente os únicos a levar a quarentena a sério ainda, mas cheios de novidades 😁

Crescer, verbo intransitivo

É no carro que nossas conversas mais aleatórias e curiosas acontecem. Acho que o fato de não ter outra distração senão olhar a rua faz com que as crianças deixem suas cabecinhas voarem longe. Dia desses, quando estávamos voltando de uma visita à distância (sim, porque a pandemia não acabou) da casa da avó, Maria Luísa disse que queria ser jornalista e guitarrista quando crescesse. Pedro riu e falou "mas e fada do dente, você não vai mais ser?". Expliquei que a gente sempre pode mudar de ideia quanto a isso, mesmo se já adultos. "O Tio Fabinho, por exemplo, pode cansar de ser advogado e virar surfista", imaginei (o que causou risinhos deles, mas essa piada só é válida para quem conhece meu irmão). 

Ficamos falando sobre profissões e sobre poder escolher. Eu disse que, antigamente, alguns pais convenciam os filhos a estudarem coisas que eles não gostavam, simplesmente porque queriam que fossem médicos, engenheiros ou dentistas. Mas que agora isso não é tão comum, no geral as pessoas podem decidir de acordo com o que gostam. Ele riu aliviado e falou "ainda bem que você e o papai não são assim e eu vou poder escolher meu próprio trabalho". Me senti o máximo por uns minutos, porém logo ele fez uma cara meio chateada. "O problema", explicou, "é que eu sou muito feliz sendo criança. Não queria ser adulto". 

Que frase incrível de ouvir. Apesar de compadecer desses dilemas existenciais do meu filho de 7 anos, eu fiquei tão aliviada em saber que ele está aproveitando bem a infância. Aproveitei meu dia didático e falei que ser adulto era legal também, cada coisa na sua hora. "Mas adulto não brinca!", bradou ele. "Eu brinco, ué. O papai brinca também". "Vocês têm filhos. Eu não quero ter filhos e então como vou brincar?". Essa é, de fato, uma questão. Eu não brincaria se eles não existissem. Esconde-esconde na garagem do prédio? Cabra-cega na sala? E as outras trezentas e quarenta e nove brincadeiras que fazemos juntos - sem a menor chance de fazer isso sem filhos. 

De qualquer forma, eu precisava acalmá-lo. Lembrei da escola, de todos os professores, dos tios deles e de algumas pessoas que brincam com crianças mesmo sem ter filhos. Ele fez uma cara de dúvida, mas satisfeito com a resposta. Está naquela fase do "nunca na vida vou me casar", sabe? A classe dele, quando as aulas eram presenciais, já tinha uma divisão natural de menino x menina. 

São tantas as etapas que a vida tem, e isso é tão lindo e assustador. Eles vão se transformando em pessoas diferentes a cada ano. Um ano na vida de uma criança é uma eternidade, um mundo de acontecimentos. Tudo bem se Pedro não quiser se casar, eu realmente não me importo com isso. E tudo bem se Maria Luísa quiser ser jornalista, embora eu ache que essa profissão vai passar por transformações definitivas nos próximos anos. Espero que a gente consiga ter a sabedoria de aceitá-los sempre, independente do que decidam fazer. 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Cada um sendo cada um

Dia desses, no fim da noite, as crianças montavam quebra-cabeça no chão e eu já estava começando a arrumação final da casa para a hora de dormir. Fiquei com dó de mandar os dois desmancharem o quebra-cabeça antes mesmo de terminarem e disse:
- Terminem de montar esse e logo depois guardem todos os brinquedos.

Maria Luísa se aproximou do Pedro e disse bem baixinho, cochichando:
- Pedro, vamos montar beeeem devagar...
- Não, Maria! Vamos montar rápido, a gente tem um monte de coisa para guardar depois!
- Ai, Pedro, que tipo de criança você é?


terça-feira, 16 de junho de 2020

Quarenteners

Queridos filhos,

Estamos há quase três meses em casa, vivendo as 24 horas do dia juntos. Devo ter citado em algum post anterior, mas, caso não tenha sido clara o suficiente, conto mais uma vez essa história que vocês provavelmente contarão muitas vezes para quem vier depois da gente. Estamos em quarentena por conta de uma pandemia causada pelo vírus Covid-19, o coronavírus. Começou lá na China, no fim do ano passado, e foi se espalhando pelo mundo todo. Foi preciso trancar todo mundo em casa para proteger as pessoas de uma coisa tão pequena e perigosa. O vírus nem é tão letal assim, mas a transmissão é rápida e pode sim matar.

Muitos países adotaram o lockdown, que é quando as pessoas são proibidas de verdade de sair, exceto para coisas essenciais e urgentes, como mercado e farmácia. Aqui no Brasil não foi bem assim. Parece - e os dados comprovam - que ninguém levou a quarentena muito a sério. Por isso mesmo hoje já somamos mais de 44 mil mortes. Triste, né? A nossa família - eu, vocês e o papai - escolheu se proteger e proteger nossas pessoas queridas. Isso significa que desde a primeira semana de março não abraçamos mais as vovós, não vamos mais na casa das pessoas, não saímos de casa sem máscara.

Estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para proteger as pessoas mais velhas que conhecemos - e o distanciamento social é a primeira coisa da lista. Quanto a nós quatro, nos trancamos em casa e saímos para poucas coisas, como feira, supermercado, corrida matinal e bicicleta na rua do nosso apartamento (que é sem saída e fica vazia depois das quatro da tarde). Protegemos também vocês dois do pânico que a situação causou. Ainda assim, optamos por contar tudo que está acontecendo, explicar o que vocês perguntam e falar sobre o assunto sempre que ele surge. Seria impossível - e insensível - esconder que o mundo ficou de cabeça para baixo.

Pode parecer difícil estar convivendo tão intensamente por tanto tempo, e é. Mas mesmo sem perceber a gente acabou organizando uma rotina nova, cuidando um do outro, redobrando a paciência. E vocês se mostraram mais incríveis do que a gente imaginava. Os dois têm encarado muito bem esse momento de confinamento e isso colabora muito para que a nossa casa tenha um clima de harmonia. De amor nos tempos do Covid.

Depois de passarem um ano e meio divididos entre uma correria de escola, casas das avós e finalmente nossa casa ao fim do dia, era natural que tivessem saudade de ficar tranquilos no próprio quarto ou na sala, com seus brinquedos e livros. Já estava nos nossos planos ter uma vida menos agitada em 2020 (juro que não sabia da pandemia!). No começo do ano eu tinha promovido uma grande arrumação nos armários e nós achamos muitas coisas legais, que vocês nem lembravam mais. Tenho trabalhado como freelancer e isso me dá flexibilidade de horário. Papai trabalha com horário, mas em home office.

Juntem a isso a sorte de estarem em dois, e de terem idades parecidas. E de serem pessoas calmas, compreensivas e que sabem se entreter com pouco. Aliás, esse talento de vocês foi a peça-chave para sobrevivermos a mais de 80 dias em um apartamento (que não é pequeno, mas é um apartamento). Papai e eu também nos divertimos lendo, conversando, cozinhando receitas novas. Vocês cresceram sem tanta televisão ou iPad e justamente por isso sabem brincar. E é disso que eu quero falar. Quero registrar quais são as coisas que vocês têm feito, as brincadeiras, as músicas, a maneira que temos vivido esse tempo tão diferente.

Futebol de corredor
Não sei nem se dá 6 metros, mas o corredor de entrada da casa é o lugar ideal para um futebolzinho de meio de dia. A porta é um gol, as pernas da poltrona é outro. O campo é livre e geralmente vocês dois formam um time super empolgado - especialmente a Maria Luísa, que é quem sempre chama a galera para jogar. Tão animado que o vizinho da frente postou uma reclamação no grupo do condomínio no Whatsapp. Azar dele, já que a gente não pode usar outras áreas do prédio e o jogo tem que continuar.

Caçadores da arca no vulcão de uma galáxia distante
Nem o brinquedo mais caro do mundo tira o reinado do leão de plástico, que era do tio Fabinho e hoje faz companhia para os inúmeros outros animais de plástico que moram em um dos baldes da sala. Eles fazem companhia para os integrantes da Patrulha Canina, as princesas da Frozen e um bonequinha horrorosa chamada Lol Surprise. As duras batalhas já fizeram muitos dos cachorros perderem orelhas ou pés, mas nada que os impeça de continuar a atuar como caçadores em um lugar cheio de lavas e ameaçado pelo Shere Khan, o tigre malvado do filme do Mogli, que aqui em casa é representado pelo Gato Guerreiro, o tigre amigo do He Man, que vocês não fazem ideia de quem seja. A imaginação de vocês é gigante, invejável e todos os dias vocês se olham e falam: "vamos brincar de caçadores?", e começam a criar um mundo cheio de 'finge que'.

Aulas virtuais
Ainda em março, quando as aulas presenciais foram suspensas, a escola de vocês tentou implantar o estudo à distância. Não deu certo. Ninguém sabia como fazer, nem escola (que é construtivista) nem famílias. Eu me dei conta que vocês não sabiam usar o mouse, olha só. Nasceram na era do touch screen (diferente de mim e do papai, que nascemos na era da folha de papel almaço). Por fim todo mundo entrou de férias em abril e em maio tudo recomeçou, muito mais estruturado. Vocês aprenderam a usar o computador e a ver os amigos pela tela. Pedro, você, aos 7 anos, tem aulas virtuais de matemática, práticas de linguagem, ciências, música, inglês e muitas outras. Maria, aos 4 anos, ouve histórias, aprende a fazer dobraduras, pinturas, colagens e sons. Tudo da sala de jantar, onde de segunda a sexta estão os computadores e todos os livros e materiais que vão ser usados na semana. Papai e eu nos revezamos para ajudar e tem dado tudo certo (apesar de às vezes ficarmos meio confusos com tanta coisa ao mesmo tempo). Não é o ideal, mas é o que podemos fazer hoje. A escola tem se esforçado e nós também. Temos sorte de vocês serem inteligentes e interessados, de sempre participarem das atividades e de aprenderem mesmo quando não estão estudando.   

Leiturinha e a necessidade de rotina
Criança gosta e precisa de rotina e aqui em casa sempre fomos comprometidos com isso. Eu também adoro, não vou mentir. Mas ficar em casa o tempo todo cansa pouco - as crianças, claro. Nós, adultos, ficamos acabados. Todo mundo acorda um pouco mais tarde, não se movimenta muito durante o dia e não tem sono na hora de dormir. Vocês iam para a cama às 8 e meia da noite a agora vão às nove e meia. O jantar também ficou para mais tarde, o almoço do fim de semana nem se fala. Mas se tem uma coisa que tem que acontecer todo santo dia é a leiturinha da Maria. E acontece com ritual: coberta, almofadas, bichos de pelúcia e um gibi cuidadosamente escolhido. Vocês têm amado ler gibi. Maria, que ainda não lê, prefere Turma da Mônica. Pedro, leitor há mais tempo, gosta da Mônica mas adora também Tio Patinhas, Asterix e Obelix, Calvin, Snoopy e o que achar pela casa. À noite a escolha é sempre de um livro, que papai ou eu lemos para os dois antes de dormirem. É tão bonitinho ver vocês se arrumando na cama da Maria para ouvir a história, mesmo que seja dos Três Porquinhos (a favorita da Maria há uns anos já). 

Caetanear o que há de bom
Outra coisa legal que acabou acontecendo naturalmente e que marca as nossas semanas é que no sábado e no domingo sempre tem música em casa. Eu confesso que gosto do silêncio, mas papai e vocês são super musicais e amam ouvir alguma coisa na hora do almoço, do futebolzinho ou do quebra-cabeça na mesa de jantar. E essa alguma coisa é 95% das vezes Caetano Veloso. Até o Spotify já entendeu nossa obsessão predileção e nos leva automaticamente para as músicas do Caetaninho, mesmo que a gente tenha começado a ouvir um samba ou qualquer outra coisa. Passamos a cozinhar e almoçar em casa nos fins de semana e isso se mostrou mais agradável do que pensávamos. São dias sem pressa, sem compromissos, só de música e descanso. Às vezes vamos na chácara do vovô no meio da tarde, só nós quatro, para jogar futebol no campinho, tomar um ar, subir na árvore, balançar na rede. Temos um privilégio grande de ter para onde fugir quando cansamos de olhar para as mesmas paredes.

Quando tudo isso acabar - e a gente não sabe quando vai ser -, espero que vocês tenham boas memórias do tempo que passamos juntos. Nem todo dia é lindo, claro, e temos consciência que lá fora tem gente em situação bem difícil. De qualquer forma, é um grande desafio essa convivência intensa, mas fico feliz que temos tido bons momentos e estamos mais próximos do que nunca. Que honra poder passar a quarentena com vocês.

domingo, 3 de maio de 2020

7 anos

Querido filho Pedro,

Mais uma vez demorei para escrever seu relato de aniversário. Desta vez não posso culpar a falta de tempo ou o excesso de trabalho, mas mesmo com essa super desacelerada da vida os dias têm passado tão depressa. A gente se envolve nas nossas pequenas (?) atividades e quando vê já é hora do jantar, do banho, da cama. Mesmo que o banho e a cama tenham acontecido tão mais tarde do que estávamos acostumados. Tudo mudou em relação ao que estávamos acostumados.

Fico pensando quanta literatura, quantos relatos virão dessa época. O que vai ser daqui pra frente? Vai tudo mudar mesmo? Como é que a história vai tratar tudo isso? Estamos em plena pandemia, filho, uma doença chamada Covid-19, ou coronavírus, infectou muitas e muitas pessoas no mundo todo. Começou lá na China e rapidamente se espalhou para todos os outros países. A gente nunca tinha visto nada assim, a última doença que fez tantas vítimas e numa escala tão global foi a gripe espanhola, acho, lá por volta de 1918. Nem o Vô Zito, seu bisavô, tinha nascido ainda.

Eu disse esses dias no lanche da tarde que vocês contariam essa história para seus netos. Você fez umas contas pra saber como que tinha netos e ficou bravo, falando que não teria filhos e consequentemente netos. Bom, escolha sua e eu respeito, mas eu já tenho vocês e quero sim contar tudo isso que está acontecendo. Mesmo porque a gente passou até por uma pequena aventura, quando quase ficamos presos na Argentina, sem voo para voltar para casa. Dito tudo isso, o que quero registrar hoje (meio atrasada, mas é a vida) é a comemoração do seu aniversário de 7 anos e os marcos importantes que venho observando em você.

Esse foi o ano em que te vi mais animado para comemorar seu aniversário com seus amigos da escola. Sugeri não fazer nada, só um bolinho com os avós em casa, mas você insistiu muito em convidar os meninos e meninas da sua classe para brincar na chácara do vovô. Chegamos até a convidá-los. Mas daí veio o coronavírus e mudou todos os planos. E na semana de 25 de março todo mundo estava muito tenso com tudo isso, com medo de se contaminar, tentando entender qualé que era dessa quarentena. E a gente tinha voltado há pouco tempo de uma viagem internacional (chegamos na noite do dia 19), o que deixava tudo mais complicado ainda.

Mas sabe, Pedro, as coisas acabaram acontecendo de um jeito tão bonito e singelo. E você encarou tudo isso tão bem, com seu ar sereno (beirando o blasé). Foi muito legal, no fim das contas, comemorar seu aniversário assim. Fizemos um bolo grande, com recheio e cobertura de brigadeiro, fizemos brigadeiros também, que ficaram meio duros porque eu nunca sei o ponto certo. E convidamos todos os seus brinquedos de animais para a festa-lanche da tarde, os de plástico e os de pelúcia. Colocamos os chapeuzinhos neles que tínhamos feito durante a semana e a mesa da sala de jantar ficou linda, cheia de coisa enfeitada. De pessoas, eu, você, o papai e a Maria.

Durante o dia seus amigos da escola mandaram vídeos te dando parabéns, meus irmãos e meus tios fizeram chamadas de vídeo com você. Olha aí a tecnologia sendo mais útil do que nunca. Na hora do parabéns conectamos os tios e avós nos celulares e cantamos todos juntos. A gente ficou tão imerso com os preparativos a semana inteira, e passou o dia tão rodeado de amor - vindo do celular - que você se sentiu bem, feliz. Amado, porque realmente é. Fez 7 anos, meu amor.

Como sempre fiz (e sempre atrasada), vou listar alguns fatos sobre você para lembrarmos quando você for grande. Vamos lá?

- quer se cineasta e biólogo. Chegou nessas duas profissões depois de pensar muito e parece bem decidido. Sobre a biologia, ama estudar em seus livros sobre animais e natureza. Sobre o cinema, tem tido ideias incríveis e engraçadas sobre filmes que vai gravar, tipo umas misturas de Star Wars com Turma da Mônica.
- tem passado muito tempo brincando com brinquedos com sua irmã na sala (e nos quartos, que vocês gostam de espalhar coisas pela casa toda. Mas é quarentena e pode). Pelo que eu ouço, vocês fazem umas reproduções de filmes do Star Wars e colocam personagens de outros filmes juntos, tipo o Shere Kahn, o tigre vilão do Mogli, e a galera da Patrulha Canina.
- está alto e magrelo, um menino grande. Tivemos no pediatra duas vezes esse ano, uma em janeiro, para a consulta regular do ano, e outra no fim de abril, para tentar resolver uma tossinha seca que te acompanha há muitos meses. No começo do ano estava com 1,24 cm e 23,3 kg; na semana passada já estava com 1,25 cm e 23,9 kg. Excelente na curva!
- tem feito tudo sozinho, sem nenhuma ajuda nossa: toma banho, se veste, escova os dentes, arruma a cama, guarda sapatos e brinquedos, faz o prato no almoço e jantar.
- ajuda nas coisas da casa quando eu peço, mas não adora. Dá uma bufadinha, tenta escapar, mas ajuda. Cara, nem eu gosto. Mas tem que fazer, né? Eu geralmente peço para secar e guardar louça, colocar a mesa, tirar a mesa depois das refeições e levar o cesto de roupa suja na lavanderia.
- é muito, muito bom em jogos tipo Lince (de achar figuras no tabuleiro), quebra-cabeça, jogo da memória, jogo da velha. Eu jogo super sério com você, pra ganhar, e nem sempre ganho.
- ama ama AMA desenhar. Nesses dias de quarentena e de férias da escola, tem desenhado bastante. O tema favorito é aquela mistura de Turma da Mônica com Star Wars. Faz páginas e páginas no caderno e em sulfites. E também faz umas versões de bichos como super-heróis, umas invenções criativas assim. E sempre vem mostrar pra gente, super orgulhoso. Ah, não gosta de pintar. Desenha de lápis grafite em papel branco. Tem treinado fazer ângulos diferentes da mesma coisa (de um leão, por exemplo), e é realmente legal.
- lê bastante, todos os dias, mas só as coisas que gosta. Gibis da Mônica e livros do Tio Patinhas e do Asterix são os favoritos do momento. Gosta também do livro de recordes e dos livros de animais. Os livros da escola, que eu já mandei ler, não quer nem abrir. Mas né, você lê há bastante tempo, desde os 4 anos, e na sua classe é quem está mais avançado. Não me preocupo, mas bem que eu queria que lesse logo Clarice Lispector e o que mais a professora indicou.
- é tranquilo, calmo, não se estressa por muita coisa. Raramente chora ou fica triste. Passa o dia de boa em casa. Brinco que é a pessoa mais bem-adaptada à quarentena, porque ama ficar de boa em casa, lendo e desenhando. Pergunto se está com saudade da escola e dos amigos e a resposta é sempre 'não'.
- está super confiante e andando bem de bicicleta (embora a sua bike esteja meio pequena pra você já). Como estamos nesse momento de coronavírus, só podemos sair na rua de casa, que é sem saída, mas mesmo lá você tem ido super bem.
- gosta de ver TV, mas vocês não assistem todo dia. E não pedem, não reclamam, nem percebem que não assistiram. E estão aprendendo uma coisa louca que é ligar num canal infantil e ver o que está passando, aleatoriamente. Digo louca porque vocês cresceram na era do Netflix, escolhendo quando e o que ver, diferente de mim.
- tem muita criatividade e sabe ficar no ócio sem achar isso chato, o que tem sido incrível nessa quarentena. Isso te faz ficar tranquilo, tendo ideias boas e se divertindo com pouco. Não precisa de brinquedos caros ou eletrônicos para se virar bem.
- é a pessoa mais carinhosa e amorosa do mundo inteiro <3

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Sonho

"Mamãe, eu tive um sonho muito bom hoje. Sonhei que eu e o Pedro fazíamos uma bagunça infinita na casa, com todos os brinquedos do quarto e da sala. E a gente não precisava guardar nunca, nem de dia nem de noite, e não tinha papai e mamãe. Era só ficar brincando, brincando, brincando..."

Maria Luísa, 4 anos e 8 meses, em casa desde março por conta da pandemia de coronavírus

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Paciência is the answer

Ter filho é fácil, difícil é educar. Já dizia meu marido que aqueles cursinhos que ensinam os futuros pais a trocar fraldas não servem para nada. Deveriam concentrar a grade curricular em ensinar a criar pessoas respeitosas, curiosas, educadas, boas mas não bobas, felizes porém conscientes, e assim por diante.

Dado isso, estamos em casa com uma criança de 7 anos pela primeira vez. E não sabemos o que fazer com uma criança de 7 anos justamente porque é a primeira vez que nos deparamos com essa situação. Mas apesar de parecer assustadora dito assim, é também uma questão muito interessante e motivante. Desafiadora, diríamos se estivéssemos em uma multinacional (eles adoram essa palavra lá).

Independente disso, essa semana confirmei o que eu já suspeitava há uns sete anos, mais ou menos: é preciso ter paciência quando se tem filhos. Educar é ter paciência. E persistência. E amor e respeito e jeito também, caso queira o pacote completo. Não se pode achar que as crianças nascem sabendo as coisas, ainda mais coisas que são regras sociais. Ou seja, que não são óbvias. Que se aprende vivendo um certo tempo em determinada sociedade. Não dá para comparar quem já viveu mais de 30 anos com quem chegou agora.

Pedro está em uma fase de construir suas soluções. Emprestei essas palavras da psicóloga dele, que é a pessoa que ajuda pais que fizeram os cursinhos que só ensinam a trocar fraldas. Ele precisava muito fortalecer sua autoestima e sua confiança nele mesmo para que pudesse aprender a se defender. E como quase tudo na vida, não existe fórmula ou resposta pronta para como se defender. É preciso construir sua própria maneira. E cada situação tem sua particularidade.

Há dias confinados em casa por conta da pandemia do coronavírus, Pedro e Maria Luísa às vezes se estranham. Bem poucas vezes, serei justa. Mas em uma dessas vezes ele se irritou com algo que ela fez e resolveu bater nela antes mesmo de reclamar. Chamei a atenção dele, disse que era mais legal argumentar e falar antes de agredir. Porque né, vai ver ela não sabia que estava fazendo uma coisa chata (ela sabia) e era preciso avisá-la (não era). Ele emburrou, choramingou e saiu de perto. Quando se aproximou de mim de novo, aproveitei que estava em um dia de muita paciência e expliquei novamente a mesma coisa: fala antes, quem sabe resolve. Bater não é legal, deixa como última opção. Ouviu tudo bufando (nova mania pré-pré-adolescente dele) e disse: discordo.

Desafiador, como eu disse. Ele tem direito de discordar. Né? Mesmo quando eu estou certa. Ok, respondi. Passou o tempo, eles voltaram a ser melhores amigos para sempre e a paz voltou a reinar no confinamento. Antes do jantar, os dois me ajudavam a colocar a mesa e falávamos algo sobre castelos de verdade da nossa imaginação. Como seriam, onde estariam, quem moraria.

E aí Pedro me sai com essa: no meu castelo teria uma regra muito importante. Quem usasse violência seria preso, menos as crianças. Ahn? Sim, as crianças ainda estão aprendendo que é preciso falar e tentar resolver as coisas com conversa, ele explicou, e por isso elas não poderiam ser presas. Os adultos já sabem disso, e se mesmo assim fossem violentos, deveriam ir direto para a prisão do castelo. Excelente regra, concordamos todos.

Como eu disse, paciência. Essa é a chave para viver, para ensinar e para aprender. Em alguns casos levamos anos para entender algumas coisas e outras vezes a lição cai na nossa cara na hora. Às vezes é no intervalo entre o lanche da tarde e o jantar que as respostas chegam. E tem coisa que não aprendemos nunca, mas isso é outro tema. Ninguém sabe tudo e é uma baita sorte ter alguém que nos explique da melhor forma possível (eu, no caso). E faz bem também entender que é preciso tempo para assimilar o que se aprende.

domingo, 29 de março de 2020

Muito difícil, mas muito legal

"Nossa, deve ser muito difícil ser mãe. Lavar louça, cozinhar, tirar a roupa do varal e ainda ter que dar amor e carinho para os filhos! Nossa, é muita coisa."

Pedro
26 de março de 2020

segunda-feira, 23 de março de 2020

A melhor parte de viajar

O que mais gosto das nossas viagens de família é passar um tempo só nós quatro em situações completamente diferentes do cotidiano. E conhecer novos lugares e ficar sem lavar louça também, mas enfim, acho uma chance incrível da gente se conectar e se conhecer mais, além de ter assuntos que são nossos e coisas que só nós vivemos. E, claro, as pérolas das crianças. Essas são da Maria Luísa.


Estávamos sentados em (mais um) restaurante à espera do jantar, desta vez em El Chalten, nosso terceiro destino da viagem. Inventei (mais um) um jogo de letras para distrair as crianças, mas Maria Luísa, apesar da empolgação, não estava acertando muito as respostas. Quando pedi uma palavra com a letra B, Pedro resolveu ajudar. "Vai, Maria, o que tem na cara do papai?". Ela olhou para o Juliano, que está há dias com sinusite e gripe, tossindo sem parar, e gritou: "Tosse??? Virose???". Foi tão espontâneo e engraçado, o Pedro riu tanto que nem conseguiu contar pra ela que a resposta era barba.

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Vendo pela milésima vez a revista da Aerolíneas Argentinas no avião, eu e Maria nos deparamos com uma foto de mulheres usando os lenços verdes e roxos das manifestações feministas do país. Eu achei super legal e lembrei que vimos muitas mulheres protestando no dia 8 de março em San Telmo e na Plaza de Mayo, em Buenos Aires. Ela começou a rir e falou "ah, eu lembro, foi tão engraçado, todas elas gritando 'arrotamos, arrotamos'. Ri, claro, mas quando chegar a hora certa vou explicar direitinho o que elas estavam fazendo por todas nós, mulheres, e por que gritavam 'abortemos'.


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Cansados da viagem de mais de 3 horas de carro, chegamos ao hotel em El Chalten e fomos direto para o quarto relaxar um pouco e comer nossos sanduíches. As crianças abriram a porta e Maria Luísa viu que só tinham três camas e, veja só, nós somos em quatro pessoas. Toda trabalhada na autoestima e sem dar a mínima para o fato que a última a chegar na família foi justamente ela, gritou: "Ixi, só tem três camas! Coitado do papai, não tem onde dormir hoje."

Novas versões

Maria Luísa quase não fala mais palavras erradas e está perdendo os traços de bebê, virando oficialmente uma criança grande. Mas ela ainda canta umas versões engraçadíssimas das músicas e eu vou anotar aqui antes que eu esqueça. 

Carnaval
Quanto riso, oh, quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da colombina
No meio da mortidão...

Circo
Espetáculo público, com vocêêêês, a incríveeeeel Mariaaaa Luísaaaa....

Mais circo
Uma pirueta, duas piruetas
Bravo, bravo
Super piruetas, ultra piruetas
Bravo, bravo
Salta sobre a arquibancada e tomba de nariz
E a mostarda vai pedir bis...

Ficar ou não ficar

Adicionando um temperinho à minha eterna dúvida sobre ficar ou não ficar com as crianças, trabalhar ou não fora de casa o dia todo e etc, algumas frases dos meus filhos que me fazem pensar e repensar o tema.

Da Maria Luísa:

Quando eu crescer, vou ser jornalista e trabalhar em Tatuí, igual a mamãe. Mamãe, assim você vai ter uma companheira para ir para o trabalho com você.
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Fui a uma reunião que talvez vire um trabalho, mas é freela e total home office, como eu queria. Contei para as crianças que provavelmente a mamãe voltasse a trabalhar. Maria Luísa já perguntou toda animada: posso avisar amanhã na escola que eu estou de volta no integral?

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Pedro ponderou:
Eu já aproveitei bastante o integral, mas não aproveitei bastante ficar em casa ainda. Quando eu terminar de aproveitar, a gente pode voltar para o integral.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Sabedoria de fevereiro

"O carnaval é um presente pra gente."
(Luísa, Maria)

Sobrevivemos ao carnaval e garanto que aproveitamos muito! Ô gente pra gostar de ouvir Caetano, Pepeu Gomes e o que mais o banda do tio Caio tocar.  

Maria Luísa foi quem mais se esbaldou. Se vestiu de princesa para o baile da escola (que tem banda ao vivo e é muito legal), de Mulher Maravilha e de mágica para as matinês do Sesc. Fomos também em uma praça ver o Fantástico Conjunto e mais uma vez colocar glitter na cara.

Pedro, por outro lado, não estava tão animado. Foi feliz de Darth Vader para a escola, com sabre de luz vermelho e tudo (coisa de mãe, né, que não resiste a uma explicação técnica de como os sabres dos 'do mau' são vermelhos e por isso seria absurdo usar os sabres azul e verde que já tínhamos em casa). Mas para ir ao Sesc ele reclamou, choramingou, se opôs. Foi preciso muita insistência e a já célebre frase da Maria Luísa citada no começo do texto para convencer o pré-pré-adolescente a sair de casa. E ainda ficou emburrado lá, ignorando todos os confetes que eram jogados nas nossas cabeças. Mas acho bem bom registrar aqui, Sr. Pedro, caso no futuro você venha a ler esse humilde e semi abandonado blog, que EU VI VOCÊ DANÇANDO UM MONTE NA FILA DA PINTURA FACIAL NO PARQUE.

Agora me dão licença que tem confete pela casa ainda.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Eles cresceram

Eles cresceram e eu nem vi isso acontecendo. Saí de casa quando Maria Luísa não tinha nem 3 anos ainda, Pedro tinha 5. Fiquei um ano e meio trabalhando em outra cidade, voltando para casa (morta e acabada) à noite. Uma mágica aconteceu nesse tempo e só agora eu pude ver - e ainda estou surpresa. Eles cresceram. 

O momento mais revelador para mim foi quando, no meio de janeiro, eu levei sozinha os dois para brincar no Sesc. Eu fazia isso sempre, quase toda semana, e lembrava de ser muito gostoso e muito trabalhoso. E vendo os dois brincando no ginásio e no parquinho me dei conta que eles não precisam mais de ajuda para subir, descer, se pendurar. Eu não tenho mais medo de perder um deles, não preciso mais segurar a mão o tempo todo, não preciso levar ao banheiro. Eles vão. Sobem, pulam, vão ao banheiro, tomam água sozinhos. Eu só vejo. Não choram para ir tomar lanche, para sair do brinquedo, para ir para casa. Eles conversam. Entendem. Argumentam. E o Pedro quase que nem cabe mais nos brinquedos. A brinquedoteca da parte interna é para crianças até 6 os anos. Ele faz 7 daqui a um mês e poucos dias. Ele, que eu levava bebezinho ainda e fica maluca tentado protegê-lo de ser pisado pelas crianças grandes. Ele é a criança grande agora.

Voltei a levar e buscar na escola, coisa que eu também adorava e também lembrava como sendo super canseira. Não queriam ir embora (da escola, juro!), davam trabalho pra entrar no carro, colocar o cinto de segurança, sair do carro na garagem de casa. Um dia era um que queria sair pela janela, outro dia o outro que queria dirigir um pouco antes de subirmos para o apartamento. Sem contar que tinha que estar com o almoço pronto exatamente às 12h00, porque a Maria Luísa chegava exausta e dormia logo depois. Essa semana fui liberada pelo médico para dirigir (eu fiz uma cirurgia) e minha memória já me preparou para o caos de antigamente. Fui surpreendida. Saem felizes da escola, colocam sapato, pegam as mochilas. Vão direto para o carro, colocam os cintos sozinhos (!), conversam comigo. Ontem a Maria entrou, tirou o sapato na lavanderia e ficou surpresa com a sujeira do próprio pé (estava trágico mesmo). Tirou o uniforme e me avisou 'vou tomar um banhinho rápido, estou muito suja'. E tomou, sozinha. 

Estou achando o máximo e também me achando meio sobrando nessa dinâmica. Não tem mais fralda para trocar. Eu não preciso mais vestir ninguém, dar colheradas no almoço. Eles cresceram e eu preciso sim repetir isso para mim umas mil vezes para entender e para evitar entrar no caminho deles. Já entendi que eu tenho nova função como mãe. Não dá pra me dispensar (ainda), mas eu preciso achar agora o meu novo caminho.