terça-feira, 16 de junho de 2020

Quarenteners

Queridos filhos,

Estamos há quase três meses em casa, vivendo as 24 horas do dia juntos. Devo ter citado em algum post anterior, mas, caso não tenha sido clara o suficiente, conto mais uma vez essa história que vocês provavelmente contarão muitas vezes para quem vier depois da gente. Estamos em quarentena por conta de uma pandemia causada pelo vírus Covid-19, o coronavírus. Começou lá na China, no fim do ano passado, e foi se espalhando pelo mundo todo. Foi preciso trancar todo mundo em casa para proteger as pessoas de uma coisa tão pequena e perigosa. O vírus nem é tão letal assim, mas a transmissão é rápida e pode sim matar.

Muitos países adotaram o lockdown, que é quando as pessoas são proibidas de verdade de sair, exceto para coisas essenciais e urgentes, como mercado e farmácia. Aqui no Brasil não foi bem assim. Parece - e os dados comprovam - que ninguém levou a quarentena muito a sério. Por isso mesmo hoje já somamos mais de 44 mil mortes. Triste, né? A nossa família - eu, vocês e o papai - escolheu se proteger e proteger nossas pessoas queridas. Isso significa que desde a primeira semana de março não abraçamos mais as vovós, não vamos mais na casa das pessoas, não saímos de casa sem máscara.

Estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para proteger as pessoas mais velhas que conhecemos - e o distanciamento social é a primeira coisa da lista. Quanto a nós quatro, nos trancamos em casa e saímos para poucas coisas, como feira, supermercado, corrida matinal e bicicleta na rua do nosso apartamento (que é sem saída e fica vazia depois das quatro da tarde). Protegemos também vocês dois do pânico que a situação causou. Ainda assim, optamos por contar tudo que está acontecendo, explicar o que vocês perguntam e falar sobre o assunto sempre que ele surge. Seria impossível - e insensível - esconder que o mundo ficou de cabeça para baixo.

Pode parecer difícil estar convivendo tão intensamente por tanto tempo, e é. Mas mesmo sem perceber a gente acabou organizando uma rotina nova, cuidando um do outro, redobrando a paciência. E vocês se mostraram mais incríveis do que a gente imaginava. Os dois têm encarado muito bem esse momento de confinamento e isso colabora muito para que a nossa casa tenha um clima de harmonia. De amor nos tempos do Covid.

Depois de passarem um ano e meio divididos entre uma correria de escola, casas das avós e finalmente nossa casa ao fim do dia, era natural que tivessem saudade de ficar tranquilos no próprio quarto ou na sala, com seus brinquedos e livros. Já estava nos nossos planos ter uma vida menos agitada em 2020 (juro que não sabia da pandemia!). No começo do ano eu tinha promovido uma grande arrumação nos armários e nós achamos muitas coisas legais, que vocês nem lembravam mais. Tenho trabalhado como freelancer e isso me dá flexibilidade de horário. Papai trabalha com horário, mas em home office.

Juntem a isso a sorte de estarem em dois, e de terem idades parecidas. E de serem pessoas calmas, compreensivas e que sabem se entreter com pouco. Aliás, esse talento de vocês foi a peça-chave para sobrevivermos a mais de 80 dias em um apartamento (que não é pequeno, mas é um apartamento). Papai e eu também nos divertimos lendo, conversando, cozinhando receitas novas. Vocês cresceram sem tanta televisão ou iPad e justamente por isso sabem brincar. E é disso que eu quero falar. Quero registrar quais são as coisas que vocês têm feito, as brincadeiras, as músicas, a maneira que temos vivido esse tempo tão diferente.

Futebol de corredor
Não sei nem se dá 6 metros, mas o corredor de entrada da casa é o lugar ideal para um futebolzinho de meio de dia. A porta é um gol, as pernas da poltrona é outro. O campo é livre e geralmente vocês dois formam um time super empolgado - especialmente a Maria Luísa, que é quem sempre chama a galera para jogar. Tão animado que o vizinho da frente postou uma reclamação no grupo do condomínio no Whatsapp. Azar dele, já que a gente não pode usar outras áreas do prédio e o jogo tem que continuar.

Caçadores da arca no vulcão de uma galáxia distante
Nem o brinquedo mais caro do mundo tira o reinado do leão de plástico, que era do tio Fabinho e hoje faz companhia para os inúmeros outros animais de plástico que moram em um dos baldes da sala. Eles fazem companhia para os integrantes da Patrulha Canina, as princesas da Frozen e um bonequinha horrorosa chamada Lol Surprise. As duras batalhas já fizeram muitos dos cachorros perderem orelhas ou pés, mas nada que os impeça de continuar a atuar como caçadores em um lugar cheio de lavas e ameaçado pelo Shere Khan, o tigre malvado do filme do Mogli, que aqui em casa é representado pelo Gato Guerreiro, o tigre amigo do He Man, que vocês não fazem ideia de quem seja. A imaginação de vocês é gigante, invejável e todos os dias vocês se olham e falam: "vamos brincar de caçadores?", e começam a criar um mundo cheio de 'finge que'.

Aulas virtuais
Ainda em março, quando as aulas presenciais foram suspensas, a escola de vocês tentou implantar o estudo à distância. Não deu certo. Ninguém sabia como fazer, nem escola (que é construtivista) nem famílias. Eu me dei conta que vocês não sabiam usar o mouse, olha só. Nasceram na era do touch screen (diferente de mim e do papai, que nascemos na era da folha de papel almaço). Por fim todo mundo entrou de férias em abril e em maio tudo recomeçou, muito mais estruturado. Vocês aprenderam a usar o computador e a ver os amigos pela tela. Pedro, você, aos 7 anos, tem aulas virtuais de matemática, práticas de linguagem, ciências, música, inglês e muitas outras. Maria, aos 4 anos, ouve histórias, aprende a fazer dobraduras, pinturas, colagens e sons. Tudo da sala de jantar, onde de segunda a sexta estão os computadores e todos os livros e materiais que vão ser usados na semana. Papai e eu nos revezamos para ajudar e tem dado tudo certo (apesar de às vezes ficarmos meio confusos com tanta coisa ao mesmo tempo). Não é o ideal, mas é o que podemos fazer hoje. A escola tem se esforçado e nós também. Temos sorte de vocês serem inteligentes e interessados, de sempre participarem das atividades e de aprenderem mesmo quando não estão estudando.   

Leiturinha e a necessidade de rotina
Criança gosta e precisa de rotina e aqui em casa sempre fomos comprometidos com isso. Eu também adoro, não vou mentir. Mas ficar em casa o tempo todo cansa pouco - as crianças, claro. Nós, adultos, ficamos acabados. Todo mundo acorda um pouco mais tarde, não se movimenta muito durante o dia e não tem sono na hora de dormir. Vocês iam para a cama às 8 e meia da noite a agora vão às nove e meia. O jantar também ficou para mais tarde, o almoço do fim de semana nem se fala. Mas se tem uma coisa que tem que acontecer todo santo dia é a leiturinha da Maria. E acontece com ritual: coberta, almofadas, bichos de pelúcia e um gibi cuidadosamente escolhido. Vocês têm amado ler gibi. Maria, que ainda não lê, prefere Turma da Mônica. Pedro, leitor há mais tempo, gosta da Mônica mas adora também Tio Patinhas, Asterix e Obelix, Calvin, Snoopy e o que achar pela casa. À noite a escolha é sempre de um livro, que papai ou eu lemos para os dois antes de dormirem. É tão bonitinho ver vocês se arrumando na cama da Maria para ouvir a história, mesmo que seja dos Três Porquinhos (a favorita da Maria há uns anos já). 

Caetanear o que há de bom
Outra coisa legal que acabou acontecendo naturalmente e que marca as nossas semanas é que no sábado e no domingo sempre tem música em casa. Eu confesso que gosto do silêncio, mas papai e vocês são super musicais e amam ouvir alguma coisa na hora do almoço, do futebolzinho ou do quebra-cabeça na mesa de jantar. E essa alguma coisa é 95% das vezes Caetano Veloso. Até o Spotify já entendeu nossa obsessão predileção e nos leva automaticamente para as músicas do Caetaninho, mesmo que a gente tenha começado a ouvir um samba ou qualquer outra coisa. Passamos a cozinhar e almoçar em casa nos fins de semana e isso se mostrou mais agradável do que pensávamos. São dias sem pressa, sem compromissos, só de música e descanso. Às vezes vamos na chácara do vovô no meio da tarde, só nós quatro, para jogar futebol no campinho, tomar um ar, subir na árvore, balançar na rede. Temos um privilégio grande de ter para onde fugir quando cansamos de olhar para as mesmas paredes.

Quando tudo isso acabar - e a gente não sabe quando vai ser -, espero que vocês tenham boas memórias do tempo que passamos juntos. Nem todo dia é lindo, claro, e temos consciência que lá fora tem gente em situação bem difícil. De qualquer forma, é um grande desafio essa convivência intensa, mas fico feliz que temos tido bons momentos e estamos mais próximos do que nunca. Que honra poder passar a quarentena com vocês.

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