quarta-feira, 29 de abril de 2020

Sonho

"Mamãe, eu tive um sonho muito bom hoje. Sonhei que eu e o Pedro fazíamos uma bagunça infinita na casa, com todos os brinquedos do quarto e da sala. E a gente não precisava guardar nunca, nem de dia nem de noite, e não tinha papai e mamãe. Era só ficar brincando, brincando, brincando..."

Maria Luísa, 4 anos e 8 meses, em casa desde março por conta da pandemia de coronavírus

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Paciência is the answer

Ter filho é fácil, difícil é educar. Já dizia meu marido que aqueles cursinhos que ensinam os futuros pais a trocar fraldas não servem para nada. Deveriam concentrar a grade curricular em ensinar a criar pessoas respeitosas, curiosas, educadas, boas mas não bobas, felizes porém conscientes, e assim por diante.

Dado isso, estamos em casa com uma criança de 7 anos pela primeira vez. E não sabemos o que fazer com uma criança de 7 anos justamente porque é a primeira vez que nos deparamos com essa situação. Mas apesar de parecer assustadora dito assim, é também uma questão muito interessante e motivante. Desafiadora, diríamos se estivéssemos em uma multinacional (eles adoram essa palavra lá).

Independente disso, essa semana confirmei o que eu já suspeitava há uns sete anos, mais ou menos: é preciso ter paciência quando se tem filhos. Educar é ter paciência. E persistência. E amor e respeito e jeito também, caso queira o pacote completo. Não se pode achar que as crianças nascem sabendo as coisas, ainda mais coisas que são regras sociais. Ou seja, que não são óbvias. Que se aprende vivendo um certo tempo em determinada sociedade. Não dá para comparar quem já viveu mais de 30 anos com quem chegou agora.

Pedro está em uma fase de construir suas soluções. Emprestei essas palavras da psicóloga dele, que é a pessoa que ajuda pais que fizeram os cursinhos que só ensinam a trocar fraldas. Ele precisava muito fortalecer sua autoestima e sua confiança nele mesmo para que pudesse aprender a se defender. E como quase tudo na vida, não existe fórmula ou resposta pronta para como se defender. É preciso construir sua própria maneira. E cada situação tem sua particularidade.

Há dias confinados em casa por conta da pandemia do coronavírus, Pedro e Maria Luísa às vezes se estranham. Bem poucas vezes, serei justa. Mas em uma dessas vezes ele se irritou com algo que ela fez e resolveu bater nela antes mesmo de reclamar. Chamei a atenção dele, disse que era mais legal argumentar e falar antes de agredir. Porque né, vai ver ela não sabia que estava fazendo uma coisa chata (ela sabia) e era preciso avisá-la (não era). Ele emburrou, choramingou e saiu de perto. Quando se aproximou de mim de novo, aproveitei que estava em um dia de muita paciência e expliquei novamente a mesma coisa: fala antes, quem sabe resolve. Bater não é legal, deixa como última opção. Ouviu tudo bufando (nova mania pré-pré-adolescente dele) e disse: discordo.

Desafiador, como eu disse. Ele tem direito de discordar. Né? Mesmo quando eu estou certa. Ok, respondi. Passou o tempo, eles voltaram a ser melhores amigos para sempre e a paz voltou a reinar no confinamento. Antes do jantar, os dois me ajudavam a colocar a mesa e falávamos algo sobre castelos de verdade da nossa imaginação. Como seriam, onde estariam, quem moraria.

E aí Pedro me sai com essa: no meu castelo teria uma regra muito importante. Quem usasse violência seria preso, menos as crianças. Ahn? Sim, as crianças ainda estão aprendendo que é preciso falar e tentar resolver as coisas com conversa, ele explicou, e por isso elas não poderiam ser presas. Os adultos já sabem disso, e se mesmo assim fossem violentos, deveriam ir direto para a prisão do castelo. Excelente regra, concordamos todos.

Como eu disse, paciência. Essa é a chave para viver, para ensinar e para aprender. Em alguns casos levamos anos para entender algumas coisas e outras vezes a lição cai na nossa cara na hora. Às vezes é no intervalo entre o lanche da tarde e o jantar que as respostas chegam. E tem coisa que não aprendemos nunca, mas isso é outro tema. Ninguém sabe tudo e é uma baita sorte ter alguém que nos explique da melhor forma possível (eu, no caso). E faz bem também entender que é preciso tempo para assimilar o que se aprende.