sábado, 26 de dezembro de 2020

Um resumo do semestre

Queridos filhos Pedro e Maria Luísa,

Venho fazer mais um registro de nossa vida atual para que vocês leiam no futuro, quando foram grandes. Estamos terminando 2020 e, crianças, que ano foi esse? Nunca na vida pensamos em passar por tanta coisa louca e inesperada, acho que nem ficção daria conta de inventar tanta história surreal. Mas sobrevivemos e vivemos bem na medida do possível. Vou dividir em tópicos para facilitar a escrita e o entendimento.

Acho importante lembrar, antes de tudo - não só aqui, mas todos os dias da vida - que somos ridiculamente privilegiados. Moramos em um apartamento ótimo, vocês estudam em uma escola incrível e não perdemos ninguém para o coronavírus. Enfim, não fomos diretamente afetados pela epidemia como tanta gente do nosso país desigual, onde pessoas perderam o emprego, a renda, os familiares, a escola. Então, antes de qualquer reclamação ou drama classe-média-sofre, é preciso fazer uma pausa para lembrarmos do lugar que estamos falando, da situação que nós estamos e da realidade do Brasil.  

Pandemia infinita

Faz quase um ano que estamos em pandemia mundial. No fim de março e começo de abril o Brasil se alarmou e tudo virou de ponta cabeça. Não só o Brasil, mas o mundo todo. Víamos o que se passava na Europa e outros países já sabendo que passaríamos o mesmo por aqui, com aquele delay que estamos acostumados. Quando tudo se acalmou por lá e o número de infectados e mortos por covid-19 diminuiu, sabíamos que por aqui também diminuiria, em algum momento. Apesar da ineficácia do governo, mas esse já é outro assunto. 

Pois bem, quando por aqui as coisas começaram a se acalmar e nossa vida foi voltando ao que era antes - restaurante, casa de familiares, escola presencial - deu-se a segunda onda na Europa e a certeza que ela viria para cá também. Agora, em dezembro, o número de pessoas infectadas no Brasil saltou e as medidas de prevenção voltaram a ser discutidas. Mas naquele esquema, prefeitura x estado x país. Um contradizendo o outro. E, depois de tanto tempo em casa, se lambuzando de álcool gel e usando máscara, ninguém mais quer fazer nada disso. Cansou, já deu. Ninguém mais se protege e os números sobem. 

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Escola presencial

Vocês voltaram presencialmente para a escola na última semana de outubro e ficaram até o fim de novembro. Nos primeiros dias de dezembro viajamos para Paraty, no RJ, e depois vocês não foram mais à aula. Foi um momento curto, mas importante para vocês, de reencontrar os amigos e os professores. Que falta faz o convívio social. Achei muito bacana vocês voltando para casa famintos e cansados e sujos e cheios de histórias para contar. Como vai ser o próximo ano? Ninguém sabe ainda, mas acredito que terá máscara, álcool gel, distanciamento e toda a preocupação de antes. Pelo menos até a vacina chegar, o que não tem data ainda (no Brasil; em alguns outros países do mundo a vacinação já começou). Isso nas escolas particulares, essas empresas que precisam lidar com clientes tal qual uma loja. Já nas escolas públicas a história é outra, bem diferente e menos promissora. 

Paraty

Sobre a viagem em plena pandemia, acho que fomos um pouco irresponsáveis sim, mas fizemos. Fomos de carro (o que foi bem tranquilo e levou pouco mais de cinco horas). Vocês se distraíram o tempo todo com livros de pintura e atividades e gibis (e eu usei meu método favorito, que é dormir o maior tempo possível). Nos programamos para estar na cidade nos dias de semana e contratamos um passeio de barco só para nós quatro no fim de semana. Tomamos cuidados, mas não me orgulho de ter ido viajar nessa época. De qualquer forma, fomos, e foi bem gostoso. A cidade é linda demais, com as casas coloniais e centro histórico preservado. A natureza ao redor também é deslumbrante, numa mistura infalível de praia e montanha. Não tem como dar ruim. 

Vocês se divertiram com tudo: os caranguejos nas calçadas, o mar, a areia, as poças de água nos dias de chuva, a piscina do hotel, as ruas de pedras, os bichos que vimos nos passeios, o barco... Vocês se encantam com cada coisinha e eu me encanto junto. Nós formamos a melhor equipe de viagem de todas e até um cartão de aniversário eu ganhei no dia 5 de dezembro, que a Maria guardou escondido na mala. Foi uma aventura legal para encerrarmos o ano.

A morte

Mas, como nem tudo é feito de sol e diversão, passamos por uma situação também inesperada e muito triste, que foi o falecimento da minha tia Elisa. Ela morreu de câncer no dia 6 de dezembro, um dia depois do meu aniversário, quando estávamos na estrada voltando para casa. Vocês ficaram sabendo de tudo, de toda a caminhada desde o diagnóstico da doença, em setembro, até a despedida dela. Fomos visitá-las algumas vezes e até ajudar quando ela já não estava bem. 

Foi o primeiro contato de vocês com a morte, assim tão perto. Nunca tínhamos perdido alguém próximo depois que vocês nasceram, eu acho. E vocês dois encararam muito bem. Fizeram perguntas, viram minha dor, me consolaram, aprenderam como as pessoas ficam quando perdem alguém e que a vida é assim mesmo, finita. Achei importante que nada fosse segredo ou meia verdade. Uma das coisas mais importantes no nosso relacionamento, acredito eu, é a honestidade. 

Festas de fim de ano

Passamos o Natal com a família - dia 24 com meus familiares, dia 25 com os do papai. É assim que sempre fazemos, desde que vocês chegaram. Neste ano não tivemos amigo-secreto (o que achei ótimo e bem econômico) e nem muita gente (o que também achei ótimo). O clima não era dos mais festivos, pela perda tão recente da tia Elisa e pela pandemia, mas foi importante estarmos juntos, nos dois dias. 

Vocês, crianças, têm uma função importante nesses dias, que é alegrar as pessoas ao redor mesmo sem fazer nada pra isso. A simples presença de vocês andando de um lugar para o outro, mexendo nas coisas, falando com suas vozes infantis... casa com criança fica renovada, mais alegre, sabe? Eu sei que vocês não sabem, mas é bem isso que acontece. Quando a gente não vai a algum lugar, não é a nossa ausência que é lamentada, mas a de vocês. Eu não ligo muito para Natal, mas fico feliz que vocês possam alegrar o dia de seus avós e bisavós.

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