quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Escritora

Maria Luísa já aprendeu a escrever algumas palavras e tem usado essa nova habilidade para se comunicar. Nesta semana, ela e o Pedro brigaram por algum motivo bobo e ela se sentiu meio mal de ter chateado o irmão. Correu pegar uma folha de sulfite, escreveu "EU SOU PECIMA" e entregou a ele. Pedro ficou tão comovido com a mensagem que amassou a folha com força e gritou: você não é péssima, Maria! E eles se abraçaram.

Foi lindo, gente.

Claro que voltaram a brigar de novo depois de uns minutos, mas foi lindo pelo tempo que durou.

domingo, 2 de agosto de 2020

Como nossos pais

A gente sempre se gabou de apresentar música boa aos nossos filhos. O Juliano, principalmente. E música boa é uma coisa ABSOLUTAMENTE relativa. Boa para ele. Para nós, no máximo. Mas o ponto que quero chegar é esse: ouvimos, na nossa casa, Caetano Veloso (em modo repeat enlouquecido), Milton Nascimento, Gilberto Gil, Gal Costa, Chico Buarque, Belchior, Novos Baianos, Beatles, Rolling Stones, Etta James, Louis Armstrong e muitas ouras coisas... antigas. Aos dois anos de idade, Pedro cantava de cor várias músicas do Dorival Caymmi. E nós dois felizes da vida, com cara de trabalho concluído com sucesso.

Nunca nos passou pela cabeça que isso poderia ser um problema, em vez de um trunfo. Tipo colocar essas pobres crianças em situações não tão boas assim. Não digo ruins, mas estranhas, pelos menos. Foi só na semana passada que nos demos conta disso. No encontro online da escola do Pedro, um amigo perguntou se poderia dançar no fim da aula, pela câmera mesmo. A professora concordou e meu filho se ofereceu para colocar a música. Saiu correndo para a cozinha, pegou meu celular, ligou o Spotify e digitou na busca: Chet Baker. Sim, essa criança colocou um jazz para os amigos ouvirem.

Eu não vi as caras das pessoas no computador, mas imagino que não devem ter entendido nada. O menino que queria dançar gritou: "que música é essa? Alguém coloca uma MÚSICA para eu dançar?". A professora riu e ligou um Justin Timberlake. Ou Pharrel Willians. Ou um terceiro que nem o nome eu sei ainda. Todo mundo dançou e foi o Pedro que ficou com uma cara de "que música é essa?". Mas ele gostou, achou divertida. Nem precisou nos contar o que tinha acontecido. Eu parei de arrumar as camas na mesma hora para assistir todo o show. 

Ontem olhou para o Juliano e perguntou: "por que a gente só ouve música antiga? Por que eu não conheço nenhuma música nova?". Foi engraçado e triste ao mesmo tempo. A gente caiu na real, sete anos depois. Mas a resposta do Juliano foi curiosa e sincera, acabei concordando. "Eu sou seu pai, não é meu papel te apresentar coisas novas. Isso você aprende com amigos, na escola, na rua". A gente é a geração anterior, a gente é velho. Viramos nossos pais. Esse dia ia chegar e ele chegou. Agora, são nossos filhos que trazem as coisas novas pra casa, não a gente.

Isso me fez pensar seriamente no isolamento social e em como as crianças saem perdendo com essa situação. Não só porque não aprenderam direito matemática, ciências ou práticas de leitura, mas porque não convivem com outras pessoas, com outras crianças, de outras idades e outros backgrounds. Eles estão no ápice da bolha. O mundo deles é a casa. Pensei em todas as crianças que estudam em homeschooling mesmo fora da pandemia, em como eles ficam deslocados na realidade. Igual no filme do Capitão Fantástico. 

O Capitão Fantástico e as esquisitices que só o isolamento permite. 
Spoiler: até ele resolve matricular as crianças na escola no fim do filme.

Lembrei também do ano passado, quando nós dois estávamos trabalhando fora o dia todo e as crianças tinham que ficar na escola em período integral. Apesar de todos os problemas que vejo nisso, e não são poucos, sinto que tem uma parte positiva muito importante, que é a convivência com o mundo. Foi quando o Pedro pediu o álbum de figurinhas do Fortnight, me ensinou os nomes das Beyblades, aprendeu uma música do Michael Jackson e tantas outras coisas que nem lembro mais. Ainda mais ele, que é o primeiro filho e neto em duas famílias sem crianças. Não tem um único primo mais velho para ensinar besteira. Como eu fui. O mundo dele, em casa, é feito de adultos e de uma irmã menor. Que falta faz a escola.

Até coloquei Dua Lipa no Spotify, fingindo que eu sou cool e que sou a opção mais jovem da casa. Mas não rolou. Eu mesma não conhecia nenhuma música e ele pediu logo para voltar para o Caetano. Conviver é preciso, com o maior número de pessoas, de preferência de realidades mais diversas possíveis. A gente se forma assim, no contato com o outro, no mix de referências que vamos recebendo ao longo da vida. Nem todas são boas, e não me refiro só a Ludmilla ou Anitta, mas é como tem que ser se queremos que eles cresçam.

Maria cheia de novidades

Quarentena bombando por aqui ainda (na nossa casa, pelo menos; no resto das casas nem tanto) e Maria Luísa está nos surpreendendo com várias novidades.

A primeira delas é que aprendeu a ler e escrever! Sim, sim, minha gente, essa menininha esperta está completamente envolvida com as letras. Como estamos sem aulas desde março, todas as atividades estão acontecendo em casa, por isso podemos acompanhar de perto o desenvolvimento deles. Mas acho que isso é indiferente nesse caso. Ela foi mostrando interesse pelos livros e pelos gibis. 

Todo dia nos pede uma 'leiturinha', que é um gibi da Turma da Mônica escolhido por ela, em um lugar decidido por ela também, junto com uma cobertinha (apesar de estar fazendo 29°C em pleno inverno) e uns bichos de pelúcia. O fato é que a gente lê para eles todos os dias, mais de uma vez por dia. Além do gibi, tem o livro sagrado da noite (nada a ver com bíblia, não me entendam mal). E ela tem apreciado muito esses momentos.

Daí foi mostrando interesse em juntar as letras, em fazer jogos de palavras ("vamos falar palavras que começam com F") na hora do lanche da tarde, enfim, em saber como é que as coisas são escritas. E aconteceu super rápido, ela começou a nos perguntar, a testar algumas coisas no papel e está indo muito bem. Começou a soletrar palavras também, exatamente como o Pedro fazia na idade dela. Engraçado, porque eu acho soletrar uma coisa bem difícil. 

E a outra novidade é que Maria aprendeu também a andar de bicicleta sem rodinha! Ela não queria tirar a rodinha de jeito nenhum, então não insistimos. Mas sempre optava pelo patinete, que ela domina desde que era uma mini pessoa e anda muito, muito rápido. A bicicleta, que ela ganhou no aniversário do ano passado, a deixava meio lenta, desengonçada. Mas aí um dia, do nada, resolveu dar uma voltinha na do Pedro. Juliano ajudou (eu não sou boa nisso) e o Pedro ajudou muito também. Ele ficou muito feliz com o papel de irmão-mais-velho-professor-de-coisas-legais.

Ela adorou a emoção de usar a bicicleta do irmão e, de um dia para o outro, tomou coragem e foi. Que coisa linda assistir isso! Maria é super corajosa, esperta, tem uma desenvoltura física muito grande. Aprendeu inclusive a cair bem, sem se machucar tanto. Daí hoje fomos até uma rua sem saída perto da nossa casa, que é plana e vazia, e tiramos a rodinha da bicicleta dela. Foi demais! Pedro ajudou de novo e eles se divertiram bastante. 

É isso! Estamos em casa, provavelmente os únicos a levar a quarentena a sério ainda, mas cheios de novidades 😁

Crescer, verbo intransitivo

É no carro que nossas conversas mais aleatórias e curiosas acontecem. Acho que o fato de não ter outra distração senão olhar a rua faz com que as crianças deixem suas cabecinhas voarem longe. Dia desses, quando estávamos voltando de uma visita à distância (sim, porque a pandemia não acabou) da casa da avó, Maria Luísa disse que queria ser jornalista e guitarrista quando crescesse. Pedro riu e falou "mas e fada do dente, você não vai mais ser?". Expliquei que a gente sempre pode mudar de ideia quanto a isso, mesmo se já adultos. "O Tio Fabinho, por exemplo, pode cansar de ser advogado e virar surfista", imaginei (o que causou risinhos deles, mas essa piada só é válida para quem conhece meu irmão). 

Ficamos falando sobre profissões e sobre poder escolher. Eu disse que, antigamente, alguns pais convenciam os filhos a estudarem coisas que eles não gostavam, simplesmente porque queriam que fossem médicos, engenheiros ou dentistas. Mas que agora isso não é tão comum, no geral as pessoas podem decidir de acordo com o que gostam. Ele riu aliviado e falou "ainda bem que você e o papai não são assim e eu vou poder escolher meu próprio trabalho". Me senti o máximo por uns minutos, porém logo ele fez uma cara meio chateada. "O problema", explicou, "é que eu sou muito feliz sendo criança. Não queria ser adulto". 

Que frase incrível de ouvir. Apesar de compadecer desses dilemas existenciais do meu filho de 7 anos, eu fiquei tão aliviada em saber que ele está aproveitando bem a infância. Aproveitei meu dia didático e falei que ser adulto era legal também, cada coisa na sua hora. "Mas adulto não brinca!", bradou ele. "Eu brinco, ué. O papai brinca também". "Vocês têm filhos. Eu não quero ter filhos e então como vou brincar?". Essa é, de fato, uma questão. Eu não brincaria se eles não existissem. Esconde-esconde na garagem do prédio? Cabra-cega na sala? E as outras trezentas e quarenta e nove brincadeiras que fazemos juntos - sem a menor chance de fazer isso sem filhos. 

De qualquer forma, eu precisava acalmá-lo. Lembrei da escola, de todos os professores, dos tios deles e de algumas pessoas que brincam com crianças mesmo sem ter filhos. Ele fez uma cara de dúvida, mas satisfeito com a resposta. Está naquela fase do "nunca na vida vou me casar", sabe? A classe dele, quando as aulas eram presenciais, já tinha uma divisão natural de menino x menina. 

São tantas as etapas que a vida tem, e isso é tão lindo e assustador. Eles vão se transformando em pessoas diferentes a cada ano. Um ano na vida de uma criança é uma eternidade, um mundo de acontecimentos. Tudo bem se Pedro não quiser se casar, eu realmente não me importo com isso. E tudo bem se Maria Luísa quiser ser jornalista, embora eu ache que essa profissão vai passar por transformações definitivas nos próximos anos. Espero que a gente consiga ter a sabedoria de aceitá-los sempre, independente do que decidam fazer.