A gente sempre se gabou de apresentar música boa aos nossos filhos. O Juliano, principalmente. E música boa é uma coisa ABSOLUTAMENTE relativa. Boa para ele. Para nós, no máximo. Mas o ponto que quero chegar é esse: ouvimos, na nossa casa, Caetano Veloso (em modo repeat enlouquecido), Milton Nascimento, Gilberto Gil, Gal Costa, Chico Buarque, Belchior, Novos Baianos, Beatles, Rolling Stones, Etta James, Louis Armstrong e muitas ouras coisas... antigas. Aos dois anos de idade, Pedro cantava de cor várias músicas do Dorival Caymmi. E nós dois felizes da vida, com cara de trabalho concluído com sucesso.
Nunca nos passou pela cabeça que isso poderia ser um problema, em vez de um trunfo. Tipo colocar essas pobres crianças em situações não tão boas assim. Não digo ruins, mas estranhas, pelos menos. Foi só na semana passada que nos demos conta disso. No encontro online da escola do Pedro, um amigo perguntou se poderia dançar no fim da aula, pela câmera mesmo. A professora concordou e meu filho se ofereceu para colocar a música. Saiu correndo para a cozinha, pegou meu celular, ligou o Spotify e digitou na busca: Chet Baker. Sim, essa criança colocou um jazz para os amigos ouvirem.
Eu não vi as caras das pessoas no computador, mas imagino que não devem ter entendido nada. O menino que queria dançar gritou: "que música é essa? Alguém coloca uma MÚSICA para eu dançar?". A professora riu e ligou um Justin Timberlake. Ou Pharrel Willians. Ou um terceiro que nem o nome eu sei ainda. Todo mundo dançou e foi o Pedro que ficou com uma cara de "que música é essa?". Mas ele gostou, achou divertida. Nem precisou nos contar o que tinha acontecido. Eu parei de arrumar as camas na mesma hora para assistir todo o show.
Ontem olhou para o Juliano e perguntou: "por que a gente só ouve música antiga? Por que eu não conheço nenhuma música nova?". Foi engraçado e triste ao mesmo tempo. A gente caiu na real, sete anos depois. Mas a resposta do Juliano foi curiosa e sincera, acabei concordando. "Eu sou seu pai, não é meu papel te apresentar coisas novas. Isso você aprende com amigos, na escola, na rua". A gente é a geração anterior, a gente é velho. Viramos nossos pais. Esse dia ia chegar e ele chegou. Agora, são nossos filhos que trazem as coisas novas pra casa, não a gente.
Isso me fez pensar seriamente no isolamento social e em como as crianças saem perdendo com essa situação. Não só porque não aprenderam direito matemática, ciências ou práticas de leitura, mas porque não convivem com outras pessoas, com outras crianças, de outras idades e outros backgrounds. Eles estão no ápice da bolha. O mundo deles é a casa. Pensei em todas as crianças que estudam em homeschooling mesmo fora da pandemia, em como eles ficam deslocados na realidade. Igual no filme do Capitão Fantástico.
O Capitão Fantástico e as esquisitices que só o isolamento permite.
Spoiler: até ele resolve matricular as crianças na escola no fim do filme.
Lembrei também do ano passado, quando nós dois estávamos trabalhando fora o dia todo e as crianças tinham que ficar na escola em período integral. Apesar de todos os problemas que vejo nisso, e não são poucos, sinto que tem uma parte positiva muito importante, que é a convivência com o mundo. Foi quando o Pedro pediu o álbum de figurinhas do Fortnight, me ensinou os nomes das Beyblades, aprendeu uma música do Michael Jackson e tantas outras coisas que nem lembro mais. Ainda mais ele, que é o primeiro filho e neto em duas famílias sem crianças. Não tem um único primo mais velho para ensinar besteira. Como eu fui. O mundo dele, em casa, é feito de adultos e de uma irmã menor. Que falta faz a escola.
Até coloquei Dua Lipa no Spotify, fingindo que eu sou cool e que sou a opção mais jovem da casa. Mas não rolou. Eu mesma não conhecia nenhuma música e ele pediu logo para voltar para o Caetano. Conviver é preciso, com o maior número de pessoas, de preferência de realidades mais diversas possíveis. A gente se forma assim, no contato com o outro, no mix de referências que vamos recebendo ao longo da vida. Nem todas são boas, e não me refiro só a Ludmilla ou Anitta, mas é como tem que ser se queremos que eles cresçam.