Ficamos falando sobre profissões e sobre poder escolher. Eu disse que, antigamente, alguns pais convenciam os filhos a estudarem coisas que eles não gostavam, simplesmente porque queriam que fossem médicos, engenheiros ou dentistas. Mas que agora isso não é tão comum, no geral as pessoas podem decidir de acordo com o que gostam. Ele riu aliviado e falou "ainda bem que você e o papai não são assim e eu vou poder escolher meu próprio trabalho". Me senti o máximo por uns minutos, porém logo ele fez uma cara meio chateada. "O problema", explicou, "é que eu sou muito feliz sendo criança. Não queria ser adulto".
Que frase incrível de ouvir. Apesar de compadecer desses dilemas existenciais do meu filho de 7 anos, eu fiquei tão aliviada em saber que ele está aproveitando bem a infância. Aproveitei meu dia didático e falei que ser adulto era legal também, cada coisa na sua hora. "Mas adulto não brinca!", bradou ele. "Eu brinco, ué. O papai brinca também". "Vocês têm filhos. Eu não quero ter filhos e então como vou brincar?". Essa é, de fato, uma questão. Eu não brincaria se eles não existissem. Esconde-esconde na garagem do prédio? Cabra-cega na sala? E as outras trezentas e quarenta e nove brincadeiras que fazemos juntos - sem a menor chance de fazer isso sem filhos.
De qualquer forma, eu precisava acalmá-lo. Lembrei da escola, de todos os professores, dos tios deles e de algumas pessoas que brincam com crianças mesmo sem ter filhos. Ele fez uma cara de dúvida, mas satisfeito com a resposta. Está naquela fase do "nunca na vida vou me casar", sabe? A classe dele, quando as aulas eram presenciais, já tinha uma divisão natural de menino x menina.
São tantas as etapas que a vida tem, e isso é tão lindo e assustador. Eles vão se transformando em pessoas diferentes a cada ano. Um ano na vida de uma criança é uma eternidade, um mundo de acontecimentos. Tudo bem se Pedro não quiser se casar, eu realmente não me importo com isso. E tudo bem se Maria Luísa quiser ser jornalista, embora eu ache que essa profissão vai passar por transformações definitivas nos próximos anos. Espero que a gente consiga ter a sabedoria de aceitá-los sempre, independente do que decidam fazer.
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