quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Sobre apego e aprendizados

Quando o Pedro era pequeno, comprei um estojo vermelho grande com duas divisórias para guardarmos lápis de cor e giz de cera. Acabou sendo uma excelente compra, porque ele ama desenhar desde sempre. Na quarentena então, é rotina: ele e a Maria Luísa passam o dia inteiro pegando sulfite no escritório para as novas produções artísticas deles.

Daí que na semana passada precisamos nos despedir do tal do estojo vermelho, que estava bem velhinho e rasgado, derrubando giz pela casa inteira. Peguei um estojo do mesmo tamanho que seria usado pelo Pedro na escola, esse ano, e transferi os lápis para lá. Simples e fácil, não? Não, claro, porque Pedro viu o estojo vermelho no lixo e desandou a chorar.

Eu procuro entender esses momentos deles, por mais que eu discorde e ache um absurdo. Num primeiro momento disse que o estojo estava velho e que não estava mais desempenhando a sua principal função, por isso trocamos. Ele continuou a chorar, por dias. Sim, DIAS! Pedro passou uns três dias lembrando do estojo e chorando.

Pedro sofre pelas coisas. Ele odeia doar roupas que não servem mais (doa, mas chora antes e se despede de cada peça) ou jogar fora desenhos antigos. Se apega a tudo que já foi importante para ele e, se pudesse, guardaria tudo para sempre. Mas a vida não é assim, né. A gente mora em um apartamento e ninguém precisa manter roupa apertada na gaveta. As coisas têm que circular e sempre tem gente precisando do que a gente não usa mais.

Em um determinado momento, já no terceiro dia, eu disse a ele que entendia a tristeza dele, que sabia como ele adorava aquele estojo, que foi seu companheiro de desenhos por alguns anos. Mas que aquilo era um objeto, uma coisa. Não poderíamos sofrer como se estivéssemos falando de uma pessoa. É mais legal guardar (ou expressar) nosso amor por pessoas, não por coisas.

"Você pensa isso, mas eu não! Nós somos diferentes! É crime agora ser diferente?", ele gritou meio choroso, sentado na cadeira da sala de jantar. Não, não é. Me agachei ao lado dele e me dei uns minutos para refletir. "Eu deveria ter dito isso para minha mãe quando tinha a idade dele", pensei. Até esqueci do estojo. "Não é, filho, você tem razão. É maravilhoso sermos diferentes, e eu preciso entender isso o quanto antes", disse.

Não tenho apego nenhum a estojo ou calça jeans de dez anos atrás. Não uso mais? Vai para a doação, junto com brinquedos, utensílios domésticos e sapatos. Mas o Pedro não é a Juliana, o Pedro é a minha mãe o Pedro, e ele realmente sente essa ligação pelas coisas dele e se aflige quando temos que nos desfazer de algo. Talvez porque aquilo signifique mudar de fase. Aquele ato de abrir mão de alguma coisa querida quer dizer que ele cresceu, que não cabe mais ali, que não é mais um bebê ou uma criança pequena. E crescer dói mesmo, assusta. 

Não tem um dia que eu não aprenda algo com as crianças, por bem ou por mal. Mesmo nos dias calmos, quase tediosos. A visão de mundo deles, tão fresca e limpa de normas sociais, me abre a cabeça para um enxergar a ingenuidade e a simplicidade que a gente vai perdendo com a vida adulta. Não me irritei de ter que acalmar um menino que chorava pelo estojo rasgado, pelo contrário, achei que eu tinha um papel ali de ensinar. Mas, como quase sempre acontece, acabei aprendendo. E que lindo ver meu filho se posicionando!

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