Sempre sofri horrores com as mudanças de fases das crianças. Sentia um luto pelo bebê que estava indo embora e sendo gradualmente substituído por uma criança cada vez mais esperta e independente. Falando assim soa estranho, e é estranho mesmo. Uma coisa que talvez só as mães consigam sentir.
Mas isso passou. Mesmo porque meus filhos já têm 7 e 5 anos e poucos traços dos bebês que foram. Eles fazem quase tudo sozinhos e eu fui descobrindo que não há porque ficar triste com isso, muito pelo contrário. Quanto maiores são, menos trabalho temos no dia a dia.
Uma das grandes conquistas, para mim, foi quando passaram a tomar banho sozinhos. Um dia Pedro pediu e eu deixei, não lembro nem quando foi. Maria Luísa nem vi como foi. Provavelmente esqueci ela no banheiro com o chuveiro ligado e quando me dei conta a criança já estava enrolada na toalha, no corredor da sala, com o cabelo lavado. Uma tarefa a menos para a gente (e uma tarefa bem molhada, por sinal).
Outro marco foi quando passaram a colocar cinto de segurança sozinhos no carro. Parece besteira, mas é uma obrigação que levava tempo e precisava de paciência. Quando pequenos porque choravam e não paravam quietos. Já maiores, colaboravam, mas ainda assim dependiam do adulto responsável para ajudar. Adulto esse que normalmente estava atrasado, atrapalhado e cheio de bolsas e mochilas penduradas. Hoje em dia cada uma abre sua porta, senta no seu lugar e coloca seu cinto. Sem drama, sem demora. O paraíso, minha gente.
Com o tempo, eles aprenderam também a preparar o próprio lanchinho da tarde. Claro que quando estou disponível gosto de cortar as frutinhas, preparar uma caneca de leite e um pãozinho para cada um. Mas se estou ocupada ou se estão com o pai, eles se viram sem o menor problema. A Maria, que gosta de banana cortada em rodinhas, prepara sozinha seu potinho. Eles também aprenderam a usar a sanduicheira para esquentar seu pães sem se queimar (na maior parte das vezes). Outra tarefa 'ticada' da lista.
No dia a dia, pegam os brinquedos e livros que querem na hora que querem e se viram nas brincadeiras, que muitas vezes se espalham pela casa inteira. E como brincam juntos, não ficam o tempo todo nos chamando para ajudar com alguma coisa. Os desenhos também não dependem da gente: eles têm todos os lápis e estojos à mão e sabem onde moram os papéis. O contra dessa situação é que vão, por dia, umas 15 folhas de sulfite para pinturas e bilhetes aleatórios. A independência custa caro.
Mas quando a gente achou que podia descansar, finalmente, das tarefas mais chatas da maternidade (limpar criança no banheiro, por exemplo, que também já foi resolvido aqui em casa), eis que aparece... o fio dental! Por essa ninguém esperava.
Um belo dia, após o almoço, chamei a Maria para conferir se a escovação dos dentes (responsabilidade também já delegada a eles, exceto a última escovada do dia) estava indo bem e avistei, entre aqueles pequenos e brancos dentinhos, um pedaço de carne do tamanho de um boi. Fiquei em pânico na mesma hora. Desde quando aquilo estava ali? Eu nunca tinha pensando na possibilidade de usar fio dental neles. De qual almoço era aquele fiapo de carne tão bem acomodado naquele cantinho? Coloquei a menina deitada na cama, com a cabeça virada para a varanda para que eu pudesse enxergar bem e fiz uma bela (e demorada) limpeza.
Mas aí o precedente já estava aberto. A gente não podia mais fingir que não sabia que aquelas boquinhas acumulavam restos de comida. O mesmo com o Pedro, que já tem dente pra caramba. Não teve jeito, tivemos que incluir essa nova obrigação no dia. E que obrigação chata (saudades, cinto de segurança). Imagina enfiar sua mão dentro da boca de alguém (alguém que não para de mexer a língua, por sinal) e ficar tentando tirar pedaços de comida dos vãos dos dentes. Ah, a maternidade...Pelo visto nosso papel por aqui não acabou. A dentista disse que só dá para confiar neles para passarem o fio dental sozinhos por volta dos 13 anos. Ou seja, tenho mais uns 2976 dias desse trabalho ingrato e melequento pela frente. Maldito dia que resolvi fiscalizar a escovação.
Como eu disse, tenho achado legal ver os dois crescendo e precisando menos de mim. Mudar de fase pode ser bem legal, no fim das contas. Mas confesso que tem uma tarefa que ainda não consigo abrir mão, mesmo sabendo que eles já conseguiriam encarar sozinhos: segurar as mãozinhas deles antes de dormir. É daqueles momentos que às vezes dá preguiça (Pedro pode demorar uns bons minutos para pegar no sono), mas é tão nosso. Eles se sentem seguros e amados, e eu, mais ainda.