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terça-feira, 1 de setembro de 2020

Mudando de fase

Sempre sofri horrores com as mudanças de fases das crianças. Sentia um luto pelo bebê que estava indo embora e sendo gradualmente substituído por uma criança cada vez mais esperta e independente. Falando assim soa estranho, e é estranho mesmo. Uma coisa que talvez só as mães consigam sentir.

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Mas isso passou. Mesmo porque meus filhos já têm 7 e 5 anos e poucos traços dos bebês que foram. Eles fazem quase tudo sozinhos e eu fui descobrindo que não há porque ficar triste com isso, muito pelo contrário. Quanto maiores são, menos trabalho temos no dia a dia.

Uma das grandes conquistas, para mim, foi quando passaram a tomar banho sozinhos. Um dia Pedro pediu e eu deixei, não lembro nem quando foi. Maria Luísa nem vi como foi. Provavelmente esqueci ela no banheiro com o chuveiro ligado e quando me dei conta a criança já estava enrolada na toalha, no corredor da sala, com o cabelo lavado. Uma tarefa a menos para a gente (e uma tarefa bem molhada, por sinal). 

Outro marco foi quando passaram a colocar cinto de segurança sozinhos no carro. Parece besteira, mas é uma obrigação que levava tempo e precisava de paciência. Quando pequenos porque choravam e não paravam quietos. Já maiores, colaboravam, mas ainda assim dependiam do adulto responsável para ajudar. Adulto esse que normalmente estava atrasado, atrapalhado e cheio de bolsas e mochilas penduradas. Hoje em dia cada uma abre sua porta, senta no seu lugar e coloca seu cinto. Sem drama, sem demora. O paraíso, minha gente.

Com o tempo, eles aprenderam também a preparar o próprio lanchinho da tarde. Claro que quando estou disponível gosto de cortar as frutinhas, preparar uma caneca de leite e um pãozinho para cada um. Mas se estou ocupada ou se estão com o pai, eles se viram sem o menor problema. A Maria, que gosta de banana cortada em rodinhas, prepara sozinha seu potinho. Eles também aprenderam a usar a sanduicheira para esquentar seu pães sem se queimar (na maior parte das vezes). Outra tarefa 'ticada' da lista.  

No dia a dia, pegam os brinquedos e livros que querem na hora que querem e se viram nas brincadeiras, que muitas vezes se espalham pela casa inteira. E como brincam juntos, não ficam o tempo todo nos chamando para ajudar com alguma coisa. Os desenhos também não dependem da gente: eles têm todos os lápis e estojos à mão e sabem onde moram os papéis. O contra dessa situação é que vão, por dia, umas 15 folhas de sulfite para pinturas e bilhetes aleatórios. A independência custa caro.

Mas quando a gente achou que podia descansar, finalmente, das tarefas mais chatas da maternidade (limpar criança no banheiro, por exemplo, que também já foi resolvido aqui em casa), eis que aparece... o fio dental! Por essa ninguém esperava. 

Um belo dia, após o almoço, chamei a Maria para conferir se a escovação dos dentes (responsabilidade também já delegada a eles, exceto a última escovada do dia) estava indo bem e avistei, entre aqueles pequenos e brancos dentinhos, um pedaço de carne do tamanho de um boi. Fiquei em pânico na mesma hora. Desde quando aquilo estava ali? Eu nunca tinha pensando na possibilidade de usar fio dental neles. De qual almoço era aquele fiapo de carne tão bem acomodado naquele cantinho? Coloquei a menina deitada na cama, com a cabeça virada para a varanda para que eu pudesse enxergar bem e fiz uma bela (e demorada) limpeza.

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Mas aí o precedente já estava aberto. A gente não podia mais fingir que não sabia que aquelas boquinhas acumulavam restos de comida. O mesmo com o Pedro, que já tem dente pra caramba. Não teve jeito, tivemos que incluir essa nova obrigação no dia. E que obrigação chata (saudades, cinto de segurança). Imagina enfiar sua mão dentro da boca de alguém (alguém que não para de mexer a língua, por sinal) e ficar tentando tirar pedaços de comida dos vãos dos dentes. Ah, a maternidade...

Pelo visto nosso papel por aqui não acabou. A dentista disse que só dá para confiar neles para passarem o fio dental sozinhos por volta dos 13 anos. Ou seja, tenho mais uns 2976 dias desse trabalho ingrato e melequento pela frente. Maldito dia que resolvi fiscalizar a escovação. 

Como eu disse, tenho achado legal ver os dois crescendo e precisando menos de mim. Mudar de fase pode ser bem legal, no fim das contas. Mas confesso que tem uma tarefa que ainda não consigo abrir mão, mesmo sabendo que eles já conseguiriam encarar sozinhos: segurar as mãozinhas deles antes de dormir. É daqueles momentos que às vezes dá preguiça (Pedro pode demorar uns bons minutos para pegar no sono), mas é tão nosso. Eles se sentem seguros e amados, e eu, mais ainda.

domingo, 3 de maio de 2020

7 anos

Querido filho Pedro,

Mais uma vez demorei para escrever seu relato de aniversário. Desta vez não posso culpar a falta de tempo ou o excesso de trabalho, mas mesmo com essa super desacelerada da vida os dias têm passado tão depressa. A gente se envolve nas nossas pequenas (?) atividades e quando vê já é hora do jantar, do banho, da cama. Mesmo que o banho e a cama tenham acontecido tão mais tarde do que estávamos acostumados. Tudo mudou em relação ao que estávamos acostumados.

Fico pensando quanta literatura, quantos relatos virão dessa época. O que vai ser daqui pra frente? Vai tudo mudar mesmo? Como é que a história vai tratar tudo isso? Estamos em plena pandemia, filho, uma doença chamada Covid-19, ou coronavírus, infectou muitas e muitas pessoas no mundo todo. Começou lá na China e rapidamente se espalhou para todos os outros países. A gente nunca tinha visto nada assim, a última doença que fez tantas vítimas e numa escala tão global foi a gripe espanhola, acho, lá por volta de 1918. Nem o Vô Zito, seu bisavô, tinha nascido ainda.

Eu disse esses dias no lanche da tarde que vocês contariam essa história para seus netos. Você fez umas contas pra saber como que tinha netos e ficou bravo, falando que não teria filhos e consequentemente netos. Bom, escolha sua e eu respeito, mas eu já tenho vocês e quero sim contar tudo isso que está acontecendo. Mesmo porque a gente passou até por uma pequena aventura, quando quase ficamos presos na Argentina, sem voo para voltar para casa. Dito tudo isso, o que quero registrar hoje (meio atrasada, mas é a vida) é a comemoração do seu aniversário de 7 anos e os marcos importantes que venho observando em você.

Esse foi o ano em que te vi mais animado para comemorar seu aniversário com seus amigos da escola. Sugeri não fazer nada, só um bolinho com os avós em casa, mas você insistiu muito em convidar os meninos e meninas da sua classe para brincar na chácara do vovô. Chegamos até a convidá-los. Mas daí veio o coronavírus e mudou todos os planos. E na semana de 25 de março todo mundo estava muito tenso com tudo isso, com medo de se contaminar, tentando entender qualé que era dessa quarentena. E a gente tinha voltado há pouco tempo de uma viagem internacional (chegamos na noite do dia 19), o que deixava tudo mais complicado ainda.

Mas sabe, Pedro, as coisas acabaram acontecendo de um jeito tão bonito e singelo. E você encarou tudo isso tão bem, com seu ar sereno (beirando o blasé). Foi muito legal, no fim das contas, comemorar seu aniversário assim. Fizemos um bolo grande, com recheio e cobertura de brigadeiro, fizemos brigadeiros também, que ficaram meio duros porque eu nunca sei o ponto certo. E convidamos todos os seus brinquedos de animais para a festa-lanche da tarde, os de plástico e os de pelúcia. Colocamos os chapeuzinhos neles que tínhamos feito durante a semana e a mesa da sala de jantar ficou linda, cheia de coisa enfeitada. De pessoas, eu, você, o papai e a Maria.

Durante o dia seus amigos da escola mandaram vídeos te dando parabéns, meus irmãos e meus tios fizeram chamadas de vídeo com você. Olha aí a tecnologia sendo mais útil do que nunca. Na hora do parabéns conectamos os tios e avós nos celulares e cantamos todos juntos. A gente ficou tão imerso com os preparativos a semana inteira, e passou o dia tão rodeado de amor - vindo do celular - que você se sentiu bem, feliz. Amado, porque realmente é. Fez 7 anos, meu amor.

Como sempre fiz (e sempre atrasada), vou listar alguns fatos sobre você para lembrarmos quando você for grande. Vamos lá?

- quer se cineasta e biólogo. Chegou nessas duas profissões depois de pensar muito e parece bem decidido. Sobre a biologia, ama estudar em seus livros sobre animais e natureza. Sobre o cinema, tem tido ideias incríveis e engraçadas sobre filmes que vai gravar, tipo umas misturas de Star Wars com Turma da Mônica.
- tem passado muito tempo brincando com brinquedos com sua irmã na sala (e nos quartos, que vocês gostam de espalhar coisas pela casa toda. Mas é quarentena e pode). Pelo que eu ouço, vocês fazem umas reproduções de filmes do Star Wars e colocam personagens de outros filmes juntos, tipo o Shere Kahn, o tigre vilão do Mogli, e a galera da Patrulha Canina.
- está alto e magrelo, um menino grande. Tivemos no pediatra duas vezes esse ano, uma em janeiro, para a consulta regular do ano, e outra no fim de abril, para tentar resolver uma tossinha seca que te acompanha há muitos meses. No começo do ano estava com 1,24 cm e 23,3 kg; na semana passada já estava com 1,25 cm e 23,9 kg. Excelente na curva!
- tem feito tudo sozinho, sem nenhuma ajuda nossa: toma banho, se veste, escova os dentes, arruma a cama, guarda sapatos e brinquedos, faz o prato no almoço e jantar.
- ajuda nas coisas da casa quando eu peço, mas não adora. Dá uma bufadinha, tenta escapar, mas ajuda. Cara, nem eu gosto. Mas tem que fazer, né? Eu geralmente peço para secar e guardar louça, colocar a mesa, tirar a mesa depois das refeições e levar o cesto de roupa suja na lavanderia.
- é muito, muito bom em jogos tipo Lince (de achar figuras no tabuleiro), quebra-cabeça, jogo da memória, jogo da velha. Eu jogo super sério com você, pra ganhar, e nem sempre ganho.
- ama ama AMA desenhar. Nesses dias de quarentena e de férias da escola, tem desenhado bastante. O tema favorito é aquela mistura de Turma da Mônica com Star Wars. Faz páginas e páginas no caderno e em sulfites. E também faz umas versões de bichos como super-heróis, umas invenções criativas assim. E sempre vem mostrar pra gente, super orgulhoso. Ah, não gosta de pintar. Desenha de lápis grafite em papel branco. Tem treinado fazer ângulos diferentes da mesma coisa (de um leão, por exemplo), e é realmente legal.
- lê bastante, todos os dias, mas só as coisas que gosta. Gibis da Mônica e livros do Tio Patinhas e do Asterix são os favoritos do momento. Gosta também do livro de recordes e dos livros de animais. Os livros da escola, que eu já mandei ler, não quer nem abrir. Mas né, você lê há bastante tempo, desde os 4 anos, e na sua classe é quem está mais avançado. Não me preocupo, mas bem que eu queria que lesse logo Clarice Lispector e o que mais a professora indicou.
- é tranquilo, calmo, não se estressa por muita coisa. Raramente chora ou fica triste. Passa o dia de boa em casa. Brinco que é a pessoa mais bem-adaptada à quarentena, porque ama ficar de boa em casa, lendo e desenhando. Pergunto se está com saudade da escola e dos amigos e a resposta é sempre 'não'.
- está super confiante e andando bem de bicicleta (embora a sua bike esteja meio pequena pra você já). Como estamos nesse momento de coronavírus, só podemos sair na rua de casa, que é sem saída, mas mesmo lá você tem ido super bem.
- gosta de ver TV, mas vocês não assistem todo dia. E não pedem, não reclamam, nem percebem que não assistiram. E estão aprendendo uma coisa louca que é ligar num canal infantil e ver o que está passando, aleatoriamente. Digo louca porque vocês cresceram na era do Netflix, escolhendo quando e o que ver, diferente de mim.
- tem muita criatividade e sabe ficar no ócio sem achar isso chato, o que tem sido incrível nessa quarentena. Isso te faz ficar tranquilo, tendo ideias boas e se divertindo com pouco. Não precisa de brinquedos caros ou eletrônicos para se virar bem.
- é a pessoa mais carinhosa e amorosa do mundo inteiro <3