Foi bem tenso. Juliano e eu ficamos sem saber o que fazer, o que pensar, com uma sensação horrível de que aquilo nunca ia passar. Tive medo de meu filho virar aquelas crianças chatas do Supernanny, que batem nos pais e se jogam no chão por qualquer coisa. Pensei que poderia ser culpa da escola - na classe dele tem alguns meninos que têm crises de raiva, gritam, choram, sobem na mesa, batem nas outras crianças. Ele mesmo me contou isso (e ele mesmo já foi 'alvo' deles, recebendo mordidas no braço). Pensa só: se os amigos da escola fazem - mais de um, e com frequência, não deve ser tão ruim assim, certo?
Culpei a idade. Não achei muitas coisas nacionais, mas achei vários textos americanos dizendo que os três anos são muito piores que os dois. Que o terrible two não é nada perto de uma criancinha raivosa que, no alto de seus três anos, já tem força física e sabe brigar como ninguém. Pensa nisso: se ele grita, se joga e funciona, por que parar com essa técnica mágica?
E daí culpei a chupeta. Tudo começou uma semana antes da visita da 'Fada da Chupeta'. Ele encarou o fim super bem, em uns três dias nem pedia mais por ela. Mas o Pedro é assim. Ele nem sempre demonstra emoções na hora ou no foco certo. Ele guarda para mais tarde, transfere para outro momento, pega a gente de surpresa (e nem sempre conseguimos relacionar uma coisa com a outra na hora). Mas pensa comigo: o cara passou três anos da vida dele dependendo da chupeta para pegar no sono. Daí, de um dia para o outro, tem que aprender a dormir sozinho, sem sugar. Como faz? Dormir ele até dormiu, mas precisou descarregar essa tensão toda nos dias seguintes.
Por fim, me culpei. Não aquela culpa padrão de mãe, uma culpa honesta, porque eu errei mesmo. Eu tenho paciência com as crianças, amo ficar com elas em casa. Mas chega uma hora que a gente cansa. Eu sou um ser humano. Tem um momento que a paciência acaba, que não dá mais para acalmar um serzinho raivoso 24 horas por dia. E quem explodia de raiva era eu. Eu ia levando, respirando fundo, mas daí não dava mais: gritava, tomava coisas da mão dele, punha de castigo, escovava os dentes a força, gritava mais alto. E o Juliano também. E a casa ia virando um inferno. Gritos todos os dias. Eu tinha medo de dormir porque sabia que o dia seguinte seria péssimo também, como tinha sido o anterior. Um ciclo. E olha que coisa: se eu me dava o luxo de explodir de raiva, por que ele não podia fazer o mesmo? Se eu gritava para ser ouvida, por que ele não podia? Se eu jogava/tomava coisa, por que raios o menino não faria o mesmo? Ele fazia, e o tempo todo. E eu de novo. Ele de novo. Ahhhhhhhhhhh!
Juliano e eu então pensamos, discutimos, e vimos o óbvio. A culpa não é exclusiva de uma ou outra coisa, mas com certeza as nossas atitudes espelham as dele. Ele aprende vendo, assistindo, o dia todo. E por que não resolver as coisas com amor, com calma? Eu amo tanto esse menino que preciso que ele saiba disso, que eu estou do lado dele, nós somos do mesmo time. Todo mundo ganha com a paz da casa.
O tempo foi passando e as coisas se resolvendo. Não completamente, porque ele ainda tem episódios de choros sem explicação (cansaço? tédio? tristeza?), ir embora dos lugares, tipo casa dos avós, ainda é difícil, mas tudo melhorou. Passamos as semanas bem, ele tenta se controlar, eu não gritei mais e foi ótimo pra mim mesma também. Me sinto tão mais inteligente e controlada quando fico calma. E eles sentem isso. A gente transpira segurança - ou insegurança. Criança capta essas coisas.
Maternidade é isso aí, um desafio por dia.
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