Dia desses a avó do seu pai, que é super-mega-ultra católica, me perguntou quando vou batizar o menino (você, no caso). Engasguei e mudei de assunto. "Ele está grande, tem que ser logo", me falou. O problema é que não dá, não vai rolar batizado. Embora eu goste de comprar roupinhas temáticas para você e ame organizar uma festinha, seu pai e eu somos ateus. E ateus não batizam os filhos.
Sabe, filho, de todas as minorias excluídas, acho que os ateus são os mais excluídos. Excluídos pelas minorias excluídas. Nesse nível. Li uma vez uma pesquisa que dizia que o povo brasileiro aceitaria uma mulher na presidência (oi, Dilma), um negro (oi, Obama), quem sabe até um gay (oi, Feliciano? hahahah), mas nunca um ateu. Por quê?
Ateus são pessoas que não acreditam em deus. Mas isso não significa que são pessoas más. Não, não somos. Simplesmente achamos que não existe uma força maior que criou o universo. E que não há céu (céu há, Pedroca, mas não no sentido de 'paraíso para onde vão as pessoas que morrem'), inferno, missa, confissão, nada disso. O que há é a vida aqui e agora.
Eu já era, seu pai também e foi uma felicidade nos encontrarmos. Não sei como seria me casar com alguém religioso. Deixo claro que não tenho preconceito. Eu tento me livrar de todo tipo de preconceito. Minha família é católica, meu irmão mais novo é chefe do grupo de jovens da igreja e ministro (junto com aqueles velhinhos de roupinha branca). Isso com 20 anos de idade. O que eu acho disso? Bonito, ele gosta e se dedica à religião. Assim como acharia bonito se ele se dedicasse a outra coisa. O que me deixa feliz é a dedicação. E também o fato de ele, nem meu irmão do meio (que também é católico super praticante), terem problema nenhum com o fato de eu ter conseguido escapar da crisma e não ser religiosa. A gente vive bem e feliz assim. Temos uma relação de respeito muito legal.
E aí que eu chego num ponto importantíssimo: respeito. É a palavra que lidera meu jeito de te criar. Quero que você seja um homem que respeite. As diferenças, as religiões, as não religiões, as pessoas, a natureza, as cidades, a vida. Não vou te dar uma educação religiosa, mas isso não significa que não vou te educar para ser um homem educado, respeitoso, sensato.
Nunca vamos te incentivar a isso, mas, se quando grande você quiser fazer parte de alguma religião, vou respeitar. É assim que funciona. Liberdade e respeito.
Nunca esqueço que li isso em "Os Maias", do Eça de Queiroz: o avô decide criar o neto sem religião, isso na sociedade portuguesa do final do século 19, loucamente católica. E explica para as carolas que não se conformam com o fato que nada impedirá que ele ensine o menino a não matar, não roubar, não trair, porque isso é ser um homem bom, independente de religião (deixo claro que faz uns 10 anos que li o livro e escrevi como me lembrava). Lindo!
Então é isso, bebê pagão.
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