quinta-feira, 2 de setembro de 2021
Sabedoria ninja
terça-feira, 4 de maio de 2021
Notícias do front
sábado, 26 de dezembro de 2020
Um resumo do semestre
Queridos filhos Pedro e Maria Luísa,
Venho fazer mais um registro de nossa vida atual para que vocês leiam no futuro, quando foram grandes. Estamos terminando 2020 e, crianças, que ano foi esse? Nunca na vida pensamos em passar por tanta coisa louca e inesperada, acho que nem ficção daria conta de inventar tanta história surreal. Mas sobrevivemos e vivemos bem na medida do possível. Vou dividir em tópicos para facilitar a escrita e o entendimento.
Acho importante lembrar, antes de tudo - não só aqui, mas todos os dias da vida - que somos ridiculamente privilegiados. Moramos em um apartamento ótimo, vocês estudam em uma escola incrível e não perdemos ninguém para o coronavírus. Enfim, não fomos diretamente afetados pela epidemia como tanta gente do nosso país desigual, onde pessoas perderam o emprego, a renda, os familiares, a escola. Então, antes de qualquer reclamação ou drama classe-média-sofre, é preciso fazer uma pausa para lembrarmos do lugar que estamos falando, da situação que nós estamos e da realidade do Brasil.
Pandemia infinita
Faz quase um ano que estamos em pandemia mundial. No fim de março e começo de abril o Brasil se alarmou e tudo virou de ponta cabeça. Não só o Brasil, mas o mundo todo. Víamos o que se passava na Europa e outros países já sabendo que passaríamos o mesmo por aqui, com aquele delay que estamos acostumados. Quando tudo se acalmou por lá e o número de infectados e mortos por covid-19 diminuiu, sabíamos que por aqui também diminuiria, em algum momento. Apesar da ineficácia do governo, mas esse já é outro assunto.
Pois bem, quando por aqui as coisas começaram a se acalmar e nossa vida foi voltando ao que era antes - restaurante, casa de familiares, escola presencial - deu-se a segunda onda na Europa e a certeza que ela viria para cá também. Agora, em dezembro, o número de pessoas infectadas no Brasil saltou e as medidas de prevenção voltaram a ser discutidas. Mas naquele esquema, prefeitura x estado x país. Um contradizendo o outro. E, depois de tanto tempo em casa, se lambuzando de álcool gel e usando máscara, ninguém mais quer fazer nada disso. Cansou, já deu. Ninguém mais se protege e os números sobem.
Escola presencial
Vocês voltaram presencialmente para a escola na última semana de outubro e ficaram até o fim de novembro. Nos primeiros dias de dezembro viajamos para Paraty, no RJ, e depois vocês não foram mais à aula. Foi um momento curto, mas importante para vocês, de reencontrar os amigos e os professores. Que falta faz o convívio social. Achei muito bacana vocês voltando para casa famintos e cansados e sujos e cheios de histórias para contar. Como vai ser o próximo ano? Ninguém sabe ainda, mas acredito que terá máscara, álcool gel, distanciamento e toda a preocupação de antes. Pelo menos até a vacina chegar, o que não tem data ainda (no Brasil; em alguns outros países do mundo a vacinação já começou). Isso nas escolas particulares, essas empresas que precisam lidar com clientes tal qual uma loja. Já nas escolas públicas a história é outra, bem diferente e menos promissora.
Paraty
Sobre a viagem em plena pandemia, acho que fomos um pouco irresponsáveis sim, mas fizemos. Fomos de carro (o que foi bem tranquilo e levou pouco mais de cinco horas). Vocês se distraíram o tempo todo com livros de pintura e atividades e gibis (e eu usei meu método favorito, que é dormir o maior tempo possível). Nos programamos para estar na cidade nos dias de semana e contratamos um passeio de barco só para nós quatro no fim de semana. Tomamos cuidados, mas não me orgulho de ter ido viajar nessa época. De qualquer forma, fomos, e foi bem gostoso. A cidade é linda demais, com as casas coloniais e centro histórico preservado. A natureza ao redor também é deslumbrante, numa mistura infalível de praia e montanha. Não tem como dar ruim.
Vocês se divertiram com tudo: os caranguejos nas calçadas, o mar, a areia, as poças de água nos dias de chuva, a piscina do hotel, as ruas de pedras, os bichos que vimos nos passeios, o barco... Vocês se encantam com cada coisinha e eu me encanto junto. Nós formamos a melhor equipe de viagem de todas e até um cartão de aniversário eu ganhei no dia 5 de dezembro, que a Maria guardou escondido na mala. Foi uma aventura legal para encerrarmos o ano.
A morte
Mas, como nem tudo é feito de sol e diversão, passamos por uma situação também inesperada e muito triste, que foi o falecimento da minha tia Elisa. Ela morreu de câncer no dia 6 de dezembro, um dia depois do meu aniversário, quando estávamos na estrada voltando para casa. Vocês ficaram sabendo de tudo, de toda a caminhada desde o diagnóstico da doença, em setembro, até a despedida dela. Fomos visitá-las algumas vezes e até ajudar quando ela já não estava bem.
Foi o primeiro contato de vocês com a morte, assim tão perto. Nunca tínhamos perdido alguém próximo depois que vocês nasceram, eu acho. E vocês dois encararam muito bem. Fizeram perguntas, viram minha dor, me consolaram, aprenderam como as pessoas ficam quando perdem alguém e que a vida é assim mesmo, finita. Achei importante que nada fosse segredo ou meia verdade. Uma das coisas mais importantes no nosso relacionamento, acredito eu, é a honestidade.
Festas de fim de ano
Passamos o Natal com a família - dia 24 com meus familiares, dia 25 com os do papai. É assim que sempre fazemos, desde que vocês chegaram. Neste ano não tivemos amigo-secreto (o que achei ótimo e bem econômico) e nem muita gente (o que também achei ótimo). O clima não era dos mais festivos, pela perda tão recente da tia Elisa e pela pandemia, mas foi importante estarmos juntos, nos dois dias.
Vocês, crianças, têm uma função importante nesses dias, que é alegrar as pessoas ao redor mesmo sem fazer nada pra isso. A simples presença de vocês andando de um lugar para o outro, mexendo nas coisas, falando com suas vozes infantis... casa com criança fica renovada, mais alegre, sabe? Eu sei que vocês não sabem, mas é bem isso que acontece. Quando a gente não vai a algum lugar, não é a nossa ausência que é lamentada, mas a de vocês. Eu não ligo muito para Natal, mas fico feliz que vocês possam alegrar o dia de seus avós e bisavós.
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
5 anos
Maria Luísa fez 5 anos no dia 13 de agosto e eu, como sempre, esqueci de vir fazer minhas tradicionais (e atrasadas) anotações sobre ela e essa idade tão legal e engraçada. Muita coisa aconteceu nesse ano inusitado - ou pouca coisa, não sei ao certo - mas pudemos ver um crescimento gigantesco dessa menina maluquinha.
Festa de aniversário
Como a pandemia ainda estava rolando, decidimos fazer aquele esquema de bolo em casa, só nós quatro mesmo. E com aquela encenação toda de surpresa, que quase nunca dá certo. Mas foi legal! Fizemos o bolo que ela queria, de chocolate com recheio de doce de leite e cobertura de brigadeiro com M&Ms. Estou quase que uma especialista na receita já. No fim da noite, as duas avós passaram por aqui e entregaram presentes para as crianças pelo portão do prédio.
O tema desse ano era criativo, como a própria aniversariante: caça à bailarina. Apesar das piadas do Juliano e do Pedro, não envolvia espingarda nem nada assim. Era, na prática, um esconde-esconde em que ela, vestida de bailarina, se esconderia em um canto da casa e os convidados sairiam para procurá-la. O primeiro a achar ganharia um chocolate. Desafio aceito: preparei uma caixinha com Bis e Batom, que ela ama, achei o collant do balé (que já está apertado, mas tudo bem) e fizemos a brincadeira que ela inventou.
Teve decoração também! Fizemos alguns desenhos durante a semana e colamos na parede da sala de jantar, junto com bexigas de cores variadas. Na mesa, posicionamos as duas bonecas bailarinas dela, a rosa e a roxa, ao lado do bolo. O Pedro até usou gravata borboleta para a festa hhahahah! Não foi uma festa tradicional, mas foi bem divertida.
Crescimento
Como de praxe, vou fazer algumas anotações sobre o desenvolvimento da Mariazinha para que a gente possa ler no futuro e relembrar desses momentos.
- como não vai ao pediatra há tempos, não sei ao certo quanto está medindo e pesando. A anotação da última consulta, em janeiro, diz 1,06 cm e 17,7 kg. Mas com base na quantidade de bolo que a gente fez na quarentena e nas calças todas curtas na gaveta dela, imagino que já tenha passado disso.
- aprendeu a ler e a escrever em plena quarentena. Eu não aguento de orgulho dessas coisas! Pouco antes de fazer 5 anos, estava muito, muito curiosa sobre letras, palavras e rimas. Então nós fizemos jogos, brincadeiras e cartas uns para os outros, até que ela se sentiu confiante para começar a ler e escrever sozinha. Foi muito legal! A escrita ainda está se desenvolvendo, claro, mas ela consegue se expressar. Mistura C com S e usa QU no lugar do C. Ainda assim consegue escrever cartões para a família toda.
- com essa nova habilidade, passa bastante tempo lendo gibis da Turma da Mônica no sofá ou na cama, com uma girafa debaixo do braço e uma cobertinha. Apesar de já conseguir ler e se divertir sozinha, nos pede TODO DIA para fazermos uma 'leiturinha' de um gibi para ela.
- aprendeu a andar de bicicleta sem rodinhas, como eu também já havia contado em outro post. Foi bem rápido, precisou de poucos dias para se sentir segura e ir. Agora corre pra caramba e não tem medo de nada. E caiu pouquíssimas vezes.
- gosta de jogar Beyblade com o Pedro e ganhou uma de presente no Dia das Crianças.
- faz quase tudo sozinha: vai ao banheiro, escova os dentes, toma banho, se veste, penteia o cabelo, corta banana de rodinhas no lanche da tarde, arruma a própria cama, guardar brinquedos, etc etc.
- foi super bem no período de aulas online. Quis fazer todas as atividades e se adaptou bem aos encontros com os professores e os (poucos) amigos que entravam no horário. Não se intimidou com a câmera e nem teve preguiça de assistir todos os vídeos. Dentro do possível, conseguiu aproveitar bem o que foi oferecido. E sempre muito animada e feliz.
- tem uma energia surreal. Está sempre animada, cantando, pulando, chamando a gente pra jogar um futebolzinho no corredor. Aliás, tem jogado futebol super bem!
- está em dúvida se quer mesmo ser presidente do Brasil quando crescer. Considera também ser varredora de rua, dirigidora de retroescavadeira, surfista e jornalista.
- perdeu muita roupa e sapato no último ano. Quando vimos, tudo estava curto e justo.
- gosta de jogos de tabuleiro (Lince, Tapa Certo, Kariba, Dominó), mas ainda não assimila bem a derrota. Chora, joga tudo pra cima e diz que não quer mais brincar.
- fica chateadíssima se leva alguma bronca. Mas muito. Chora quietinha, sentida, até a gente ir e pegar no colo. Mas tem aprendido a reconhecer quando erra e pedir desculpas. No geral, ela e o Pedro são muito tranquilos e gente boa, não temos trabalho com eles.
- tem ideias muito criativas e sempre está bolando planos para os ataques de ninja que ela e o Pedro executam em casa. Geralmente eles planejam roubar tomatinhos da mesa antes do almoço ou então ficar passando perto da gente sem que sejam notados. cof cof
- deu uma cansada de Patrulha Canina e está envolvida em uns desenhos de crianças maiores, tipo Jovens Titãs. Ela e o Pedro têm gostado de assistir as mesmas coisas, o que facilita a hora da TV aqui em casa: Mr. Magoo, Art Atak, Irmãos Kratts.
- fica super de boa sem televisão por dias. Ela e o Pedro criaram, no início da pandemia, uma brincadeira chamada Caçadores, em que todos os brinquedos desempenham um papel numa missão e sei lá mais do que (já falei sobre isso em outro post). Agora enjoaram um pouco, mas ficaram entretidos por meses com isso.
- não faz drama para dormir. Se está com sono, põe pijama e se enfia debaixo das cobertas. Bem resolvida.
- está sempre atenta ao que acontece ao redor, tem uma desenvoltura muito grande e é muito carismática. É esperta e se vira bem sem precisar pedir muita ajuda.
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
Autoestima elevada? Temos!
Maria Luísa escreveu um livro essa semana. Não é o primeiro, mas um dos mais elaborados. Se chama "O Indiana Jones aventureiro" e tem vários desenhos dele em situações perigosas, de muita aventura. A obra tem capa e várias páginas, coladas delicadamente com fita crepe. Edição limitada.
Eu me encantei com a fofura da grafia dele, "O INDIANA DIONES AVENTUREIRO", e postei no stories do Instagram. Foi uma chuva de likes, como diz o Juliano. Várias pessoas interagiram e tentaram adivinhar o que estava escrito.
No jantar, comentei com todo mundo aqui em casa que havia postado e que o livro tinha ficado bem legal. A autora, na mesma hora, levantou da cadeira, deu um sorrisinho e disse: "Tem páginas de ponta cabeça? Sim. Mas ficou bom mesmo assim? Sim também!".
Já pensou se todas as mulheres do mundo tivessem essa autoestima, gente? Não ia sobrar patriarcado pra contar história. Nem a do Indiana Jones!
Sobre apego e aprendizados
Quando o Pedro era pequeno, comprei um estojo vermelho grande com duas divisórias para guardarmos lápis de cor e giz de cera. Acabou sendo uma excelente compra, porque ele ama desenhar desde sempre. Na quarentena então, é rotina: ele e a Maria Luísa passam o dia inteiro pegando sulfite no escritório para as novas produções artísticas deles.
Daí que na semana passada precisamos nos despedir do tal do estojo vermelho, que estava bem velhinho e rasgado, derrubando giz pela casa inteira. Peguei um estojo do mesmo tamanho que seria usado pelo Pedro na escola, esse ano, e transferi os lápis para lá. Simples e fácil, não? Não, claro, porque Pedro viu o estojo vermelho no lixo e desandou a chorar.
Eu procuro entender esses momentos deles, por mais que eu discorde e ache um absurdo. Num primeiro momento disse que o estojo estava velho e que não estava mais desempenhando a sua principal função, por isso trocamos. Ele continuou a chorar, por dias. Sim, DIAS! Pedro passou uns três dias lembrando do estojo e chorando.
Pedro sofre pelas coisas. Ele odeia doar roupas que não servem mais (doa, mas chora antes e se despede de cada peça) ou jogar fora desenhos antigos. Se apega a tudo que já foi importante para ele e, se pudesse, guardaria tudo para sempre. Mas a vida não é assim, né. A gente mora em um apartamento e ninguém precisa manter roupa apertada na gaveta. As coisas têm que circular e sempre tem gente precisando do que a gente não usa mais.
Em um determinado momento, já no terceiro dia, eu disse a ele que entendia a tristeza dele, que sabia como ele adorava aquele estojo, que foi seu companheiro de desenhos por alguns anos. Mas que aquilo era um objeto, uma coisa. Não poderíamos sofrer como se estivéssemos falando de uma pessoa. É mais legal guardar (ou expressar) nosso amor por pessoas, não por coisas.
"Você pensa isso, mas eu não! Nós somos diferentes! É crime agora ser diferente?", ele gritou meio choroso, sentado na cadeira da sala de jantar. Não, não é. Me agachei ao lado dele e me dei uns minutos para refletir. "Eu deveria ter dito isso para minha mãe quando tinha a idade dele", pensei. Até esqueci do estojo. "Não é, filho, você tem razão. É maravilhoso sermos diferentes, e eu preciso entender isso o quanto antes", disse.
Não tenho apego nenhum a estojo ou calça jeans de dez anos atrás. Não uso mais? Vai para a doação, junto com brinquedos, utensílios domésticos e sapatos. Mas o Pedro não é a Juliana, o Pedro é a minha mãe o Pedro, e ele realmente sente essa ligação pelas coisas dele e se aflige quando temos que nos desfazer de algo. Talvez porque aquilo signifique mudar de fase. Aquele ato de abrir mão de alguma coisa querida quer dizer que ele cresceu, que não cabe mais ali, que não é mais um bebê ou uma criança pequena. E crescer dói mesmo, assusta.
Não tem um dia que eu não aprenda algo com as crianças, por bem ou por mal. Mesmo nos dias calmos, quase tediosos. A visão de mundo deles, tão fresca e limpa de normas sociais, me abre a cabeça para um enxergar a ingenuidade e a simplicidade que a gente vai perdendo com a vida adulta. Não me irritei de ter que acalmar um menino que chorava pelo estojo rasgado, pelo contrário, achei que eu tinha um papel ali de ensinar. Mas, como quase sempre acontece, acabei aprendendo. E que lindo ver meu filho se posicionando!
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
Papo no cafezinho
Já falei que amo minhas conversas com as crianças no lanche da tarde, né?
Hard work
Dia desses a Maria Luísa anunciou, com aquela autoconfiança só dela, que quando crescer vai ser presidenta e policial. Desistiu da ideia de ser varredora de rua, dirigidora de retroescavadora e surfista. E me perguntou:
- E você, o que é, mamãe?
- Eu sou jornalista, filha.
- Só???
- E mãe também.
Ela riu, balançou a cabeça e disse:
- Ah, mãe não é trabalho, é coisa da vida!
Cadê o juiz?
Num bate-papo animado sobre amarelinha, Pedro estava nos explicando que no quadrado antes do 1 vinha o "INFERNO" e no final, depois do 10, vinha o "CÉU". Mas ficou em dúvida.
- O que é inferno?
- É uma crença das igrejas, filho. As pessoas religiosas acham que, quando alguém morre, vai para o céu se foi bom, que é um lugar bonito e divertido, e para o inferno se foi mau, fez coisas ruins na vida. Um lugar quente, cheio de fogo, desagradável.
- Hmmm, mas quem decide quem foi bom ou ruim, hein? Aliás, o que é bom ou ruim para um não é para outro. Qual é a lista do que é bom ou ruim?
Pois é. Eu também não sei, Pedroca.